sexta-feira, 6 de junho de 2008

Visão do mundo - Caso de encantamento



Texto de Loracy Santana


CASO DE ENCANTAMENTO


Eu ando pelo mundo, matutando vejo e vivo coisas; que talvez você distante dessas brenhas nunca tenha imaginado existir. Meu mundo. Os segredos nesse degredo, são grandes e perigosos. O homem desses cerrados, que aqui é criado, carece de proteção, de corpo fechado, pra se conseguir, faz coisa que amarra e segura a gente em um mundo de escuridão, o sujeito fica endividado, que nem eu que devo a Deus e ao diabo, e que agora fico aperreado; chega a velhice e nunca se sabe quem vai cobrar primeiro. Fiz coisa seu moço, que é segredo meu, mais que me queima por dentro, quando a gente é novo brinca muito, mais depois...

O velho Lobato era assim, mais pra calado do que de muita de fala. A cabana no meio do cerrado: ele e Maria Capenga, sua mãe, que de velha perdera a conta. Sete filhos nasceram de Maria Capenga, ela nunca diz se amou a todos como ama Lobato, único a não lhe ser ingrato, fiel como cão, os outros se foram pelo mundo, abandonaram o sertão, com sua rudeza e doçura. Maria Capenga não fez outra coisa na vida a não ser rezar e pedir proteção para o filho. Sétimo filho homem, não virou padre. Só por milagre não ia se virar em lobisomem, é a lei do mundo, o destino precisa se cumprir, sempre fora assim.

Maria Capenga não pensava em futuro pra ela, sabia que um dia se encantaria; não iria sofrer depois de morta em céu nem inferno, ia ficar encantada, sabia disso. Se arrastava pelo meio do cerrado, catando frutas do mato, o filho ajudava, nas horas que se arredava da roça. Desse pra conversar com o filho, falaria pra ele dos seus medos, mas era começar e ele se arreliava, dizia que de sua vida cuidava ele. Quando vinha notícia de bicho que atacava ninhadas de cachorro ou de gato, ela sobressaltava, e rezava, se coisa ruim acontecessesse era culpa dela, pra que ter tanto filho e tudo homem? Ainda por cima ter se enviuvado, nem pra viver e lhe ajudar, nem pra isso o marido prestou, mas que Deus guardasse um lugar pra alma dele, dos mortos mal não se deve falar.

A sina. Era só na sina que Lobato pensava, na sina e no pacto que fizera. Precisou fazer aquilo, precisava do corpo fechado. Perigo maior estava em bala benta e faca virgem. O diabo protegia, mas não se manifestava, o que será que iria querer além de sua alma? A mãe rezava muito e talvez por isso ele vivia de difícil aparecer. Lobato precisava saber de alguma coisa, se achava velho e cansado. Sexta-feira de lua cheia, precisava sair, esperava a mãe dormir, ela deitava e na esteira logo roncava. O mesmo caminho, a roupa tirada e deixada pelo avesso e a missão protegida, tinha certeza da proteção, foi trato feito de boca, mas o coisa ruim não brinca em serviço.

Na cumeeira da cabana uma enorme coruja agourava. Era a mãe que ontem mesmo todo mundo viu espichada na mesa e dentro da rede jogada na cova cavada por poucos braços. Estava lá, voou para o galho da paineira, o canto ecoou pelas grotas. Canto sinistro, como gargalhada sem sentido. A mãe cumprira o prometido, se encantou e podia agora ser livre no sertão, e ele? O encontro estava marcado, na mesma encruzilhada de tantos anos atrás, o encontro tiraria todas as suas dúvidas. Prometera a alma para o demo, mas nada perguntou para ele: Por quanto tempo ele queria essa alma? Quando a levaria? Tinha muita coisa que precisava saber, esperava ansioso a noite chegar. Não era sexta-feira, portanto não tinha nada de importante a fazer, aguardou a noite cair, sem lua. Erma, de breu.

Um comentário:

OFICINA DOS CRIADORES DE TEXTOS disse...

Adoro os causos, os encantaentos da vida caipira. Adorei o texto.
Ana Maria