quarta-feira, 4 de junho de 2008

Só vou morrer quando Eu quiser! - Descrição de pessoa famosa

Texto de Ana Maria

Há mais de cem anos ela veio ao mundo sob uma forte tormenta familiar e muita pobreza numa família em desordem e desarmonia. Dolores nascia em 1907 na pequena cidade Santa Maria Madalena no interior do Rio de Janeiro. Seu pai um alfaiate medíocre não ganhava o suficiente para lhe dar sequer um pão por dia. Sua mãe, dona Margarida abandonou o lar em troca de aventuras amorosas. E para a pequena Dolores, nome que já tinha rima certa, trocou sua infância pela luta contra a fome trabalhando em bilheterias de cinema, e se apresentando para hóspedes em hotéis.

Quem me criou foi o tempo, foi o ar. Ninguém me criou. Aprendi como as galinhas, ciscando, o que não me fazia sofrer eu achava bom

Iluminado seu rosto resplandecia no entardecer ao ar livre e sob a lona do circo mambembe onde sua pele alva se tingia na poeira esvoaçante da cidade pequena. Sua alma dolorida e pequena ainda, se contorcia na miséria e na aceitação de abrir as pernas para os homens que aplacavam a fome.

Era muito jovem para seguir de outra maneira. A figura da mãe que a abandonou no mundo psicoartístico a enojava, mas não a abatia, pois sua garra a fazia sempre viver mais um dia.

Era evidente que faria humor com tanta desgraça. Afinal desgraça era tudo o que conhecia e vivenciara em sua vida. E fez isso muito bem. De maneira escrachada e bem humorada ela revelou sua vida nos palcos dos teatros que mais tarde a acolheria com espetáculos de Chanchada e Teatro de Revista. Para isso deitou-se com homens que lhe indicariam para outros homens da vida artística.

Sou famosa, sou grande, sendo pequena

Trabalhou quase toda a sua vida sozinha. Atuou no cinema, televisão, e teatro. Em alguns espetáculos esteve ao lado de Grande Otelo e outros comediantes de renome. Foi vítima de empresário inescrupuloso e teve que retomar sua carreira já idosa, com mais de oitenta anos, por conta de dificuldades financeiras.

Numa conversa descontraída ela contou que um de seus netos lhe segurou pela mão para ajudá-la a atravessar uma rua alegando que ela corria o risco de ser atropelada, e ela rebateu dizendo: “Olha aqui menino eu te ajudei a falar, a andar, a comer, e agora eu deixo você seguir sozinho e correr seus próprios riscos. Então me dixa também correr meus próprios riscos, eu quero tentar não morrer atropelada, sozinha

Só vou morrer quando EU quiser., dita aos 95 anos

Somente uma figura de garra poderia ver que o caminho ainda poderia continuar a ser percorrido após os oitenta anos de idade. As redes de televisão que a tem em boa conta, lhe ofereceram pequenas passagens por programas de calouros onde atuaria como jurada, até que lhe deram seu proprio programa, mas que teve bem curta duração.

Despojada tirou a roupa na avenida em pleno carnaval carioca sobre um carro alegórico revelando os seios pequenos e chupados de uma mulher de quase cem anos de idade. Foi quando tomou para si a atenção do mundo que precisava ver através dos coloridos e envelhecidos olhos de Dolores que a vida tem que ser vivida enquanto estamos juntos aqui neste plano, não importando que o tempo lhe tenha gasto a pele, embranquiçado os cabelos ou trazido dores para os ossos.
Foi sua personalidade marcante, seu vocabulário xulo e sua coragem que a levou aos grandes palcos da vida, à todos eles.

Recentemente numa entrevista televisiva, a centenária demonstrou cansaço e disse que em breve deverá entregar o bastão do sucesso, mas não permitirá que lhe apaguem a chama que ela tanto lutou para que se mantivesse acesa: a vida.

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