
Texto de Loracy Santana
TRANSFIGURAÇÃO
Irritado o guarda-chuva se fechou e calou fundo. Temperamento aberto; escancarado; pára quedas; guarda-chuva aberto e arreganhado agora fechado, ferido e aturdido pela grosseria; ingratidão descabida. Uma palavra calou fundo, apenas uma teve a força maior que as frases ouvidas a vida inteira como brincadeira e debique, agora o limite calou as gargalhadas espontâneas, os abraços efusivos, o calor do afeto verdadeiro, sem falsidade. Chega!
Desde menino, mal balbuciava as primeiras palavras se misturavam com sorrisos, o olhar por si falava, quando abraçava alguém era carinhoso de afeto caloroso. Foi assim a vida inteira até fazer-se adulto de temperamento leve e brincalhão, por mais que dele falassem por galhofa, palhaço nas festas dos amigos, piadista e mágico nas horas vagas, a todos alegrava, onde estava ninguém podia ficar triste, a alegria nascera com ele e assim se sentia bem, apelidos vários, não se importava.
O momento, para ele sagrado, filha única lhe merecia respeito, deveria ser poupada, alma que transcendia ao etéreo e eterno inatingível aos simples mortais. Momento supremo de pureza absoluta, nenhuma palavra impoluta deveria voar e macular aquele instante. Bastou uma, dita como brincadeira de escárnio, interpretada como grosseira, proferida e indevida, inconveniência descontida. Transfigurado o caráter do homem solto e desenvolto em seu jeito de ser.
A partir daquele dia malfadado, ele magoado não mais sorriu, o semblante escancarado fechou-se para sempre. A sisudez toldou o seu íntimo, antes alegre e galhofeiro, o repertório de piadas trancadas para sempre em um cofre escuro, chaves atiradas no fundo do abismo, irrecuperáveis. Fechou-se, calou fundo a maldita palavra dita em tão má hora . O espinho rombudo que feriu seu coração de pai extremado, fincado no peito como eterna chaga, não demonstra mágoa nem arrependimento, o silêncio é a voz altiva que fala por todas e em todas as horas.
Sem alarde nem reclamação, via aos poucos os amigos se afastarem e sozinho encarava a mudança necessária, para continuar a viver sem nunca cometer nenhum desatino, não pretendia correr o risco de voltar a ser o que sempre fora, e em tempos ainda por vir se arrepender de ter saído do marasmo e porventura se perder em um mundo obscuro, onde sentisse que não lhe caberia, dali por diante. Distante, com a alma corroída, a alegria perdida não haveria nem teria motivação para ressuscitar o ser que dentro dele para sempre jazia morto e sepultado.
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