terça-feira, 10 de junho de 2008

Pela janela




Texto de Gabriela Araujo



O vidro escuro transforma o dia em tarde, as tardes em noites e as noites ficam mais sóbrias e frias. Sempre em movimento, consigo captar apenas alguns poucos momentos do cotidiano medíocre, mas que por algum motivo conseguem desviar minha atenção obstruída pela ansiedade de chegar a algum lugar.


O escuro do vidro, por si só, me inquieta com um pessimismo que aflora paralelo a uma sensação de impotência diante as injustiças que aqui são personificadas em crianças, pedintes e ambulantes. Impotência não. O que me apavora é a indiferença que, aos poucos, cega meus olhos e transforma o caos em banalidade.


É essa a janela responsável por estabelecer o limite entre dois mundos distintos. Do lado de dentro, o conforto e a ilusão de segurança me posicionam como observadora passiva e incapaz de estabelecer uma comunicação com a vida que grita incessantemente do lado de fora. Mas, meus ouvidos, que antes assimilavam os mais frágeis e até calados ruídos de socorro, estão obstruídos pela música leve, propositalmente escolhida para tornar meu passeio mais aconchegante.


Não sinto os cheiros da cidade. O vento não toca mais meu rosto. Ando pelas ruas e minha percepção sobre esses poucos momentos captados é limitada e ludibriada pela janela.


Não abro a janela. Não abro por covardia. Não abro por vergonha, e sinto vergonha por estar escondida e quieta dentro do meu confortável casulo. Não abro pelo meu próprio desprezo quando percebo que não me abalo com os pés sujos de uma menina descalça vendendo balas no farol, quando não me interesso pelo lixo que devora as calçadas , com a violência visual de uma cidade que cresce sem planejamento e quando não me toca os que dormem no chão frio, sujos, famintos e cobertos pelo jornal que me joga na cara tudo o que a janela me mostra, eu enxergo e prefiro não ver.

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