quarta-feira, 11 de junho de 2008

Olhar fatal

Texto de Ana Maria Maruggi

Olhar fatal

Era um sábado à tardinha quando no bar a família Lima reuniu-se numa pequena mesa para comemorar o aniversário do menor. O do meio estava encantado com a janta fora de casa. A mais velha usava a melhor roupa que imaginava combinar com o baton barato. O bolo Pullmann trazido na bolsa de mãe estava arrumado num prato de louça com as beiras quebradas e a tubaína já podia ser servida aos pequenos.


À porta surgiu Miro Silva com panca de famoso estancando com pose de galã e engolindo a mãe com olhos de vaqueiro. Ela desandou a ajeitar o cabelo da mais velha e fez o que pode para desatinar de pensamento ruim.


Miro caminhou atrevido em direção à mesa da família e pediu emprestado o fósforo. A mãe enfiou a mão na bolsa magra e de lá saiu com olhos culpados em direção ao rapaz.


O chefe da família percebeu a ousadia do moço e levantou-se devagar. Para um homem de bem isso já seria o bastante para fazer com que o safado se afugentasse.


Mas não foi para Miro que ali permaneceu mais alguns segundos e ainda ensaiou perguntar quem fazia aniversário. O pai de punhos cerrados puxou o rapaz pelo camisa encarando o moço com ódio e disse que na família não cabia mais ninguém e recomendou que ele sumisse dali enquanto estava vivo para isso. Mas Miro riu abusado da ameaça do homem e nem se moveu. A ofensa cresceu para o rei daquela família que assustada a tudo assistia encolhida no canto sob o balcão de bebida. O pai puxou a peixeira da cinta e num golpe rápido e forte golpeou o rapaz na barriga. O sangue do rapaz correu ligeiro para fora da roupa. Miro arqueou derrubando a mesa do bolo, mas ainda mantinha o riso sarcástico nos lábios. O chefe da família suava frio tremendo até os ossos pasmou diante do fato. De repente Miro sacou a garrucha e disparou dois tiros certeiros no peito do rei Lima.


Um grito de mulher tomou conta do ambiente, e depois o silêncio.

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