segunda-feira, 30 de junho de 2008

Micro conto Maldito mico- falante





Texto de Gabriela Araujo





Costumeiramente aproveitava domingo para pechinchar o preço dos mais diversos e variados itens de sua coleção de objetos descomunais, todos comprados na feira organizada por uma comunidade de ciganos. Aquele único momento que deixava o minúsculo apartamento era perfeito para eu usufruir de um universo tão diferente posto em peças que exalavam aroma antigo e oriental.


Eram esculturas que personificavam credos ciganos, xales, roupas, talismãs, leques, retratos de animais por mim nunca vistos, chapéus, moedas e livros capaz de proporcionar a imersão em um mundo particular e único onde minha imaginação flutuava livre por direções opostas às decisões racionais e petrificadas. Tinha obsessão pelo canto incabível em meu cotidiano cético, exato e linear.


Faltava magia em minha história e o tempo que passava naquela casa trazia-me gratificante sensação de invasão de uma privacidade incrível e misteriosa que nada se parecia com a minha, metódica e monótona, e me proporcionava horas de um alívio absoluto.


Apropriava-me dos objetos e contava para os fiéis e fascinados ouvintes, a mais atenta era a velha poltrona, histórias interessantes da minha vida como conhecedora dos mais diferentes cantos do mundo.


Mas, deveria saber que aquele mico- falante me causaria problema. Ouvira certa vez que o animal empalhado falava, porém nunca havia escutado sua voz. Também, como poderia um animal morto falar? Às vezes o cobria com um pano, pois, justamente no clímax de meus enredos inventados, seus olhos secos e penetrantes julgavam-me.


Certo domingo, ansiosa, forcei a janela quebrada e me deparei com uma grade de ferro que impediu minha passagem para o encanto. Enfim minha invasão fora descoberta e fechou-se a única abertura para a magia em minha vida. Maldito mico -falante!

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