quarta-feira, 18 de junho de 2008

O pai




Texto de Gabriela Araujo
Latidos, vizinhos de pijama na calçada e choros de criança. Dentro de casa o silêncio infinito e aliviado da mulher, a inquietação da filha e a indiferença do irmão sentados na mesa ao lado do corpo caído no chão.

Cresceu escutando as reclamações do pai. Primogênito logo aprendeu a responsabilidade da figura masculina. Atingiu idade suficiente ajudava o provedor no ofício. Todos os dias empilhava nas costas tudo que cabia. Sacos de cimento, pás e tijolos. O pai acompanhava reclamando. Suor, calos e exaustão. O pai reclamava.

Na casa, mulher e filha cumpriam a função feminina. Irmão trabalhava o pai reclamava.

A família era monossilábica. O pai reclamava, filho truculento, mãe misteriosa e a filha.
Cansativa, irritante, monótona, medíocre, miserável, irritante, sufocante, repetitiva, irritante, irritante, irritante rotina.

Aquela noite foi diferente. Chegaram, sentaram-se. A irmã abriu o portão, a mãe jogou a comida na mesa, o pai reclamou, o irmão comeu.O pai reclamava, a mãe, a filha, o irmão comia. Até que ele limpou a boca com a camiseta levantou e a enxadadas assassinou o pai.

O pai reclamou e ensangüentado caiu e permaneceu no chão, a mulher, a filha e o irmão voltou a comer.

A insignificante movimentação dentro daquele lar congelado foi suficiente para despertar a curiosidade dos outros. Latidos, vizinhos de pijama na calçada e choros de criança.

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