quarta-feira, 11 de junho de 2008

UMA MÚSICA ... ... UM SONHO ...


Texto de Do Carmo


Foi uma verdadeira HISTÓRIA DE AMOR. Sonhos podem ser materializados e romanticamente vividos, tudo depende da intensidade com que se sonha.


Não foi diferente com aquela mocinha sonhadora que no mês de julho do longínquo, mas tão presente ano de 1955, inicia à realização de seu SONHO DE AMOR. Quem é ela? Que sonho de amor acalentava? Aconteceu realmente ou não passou de mais uma história vivida em romances " melosos ", tão em moda nessa época de glamorosas paixões e romantismo?


Sim, foi real e vivido. Não do modo como foi sonhado, onde um Príncipe Encantado, " Sheique Árabe de olhos cor de mel ", chega cavalgando em um alazão preto e arrebatando-a nos braços a leva para seu palácio em pleno Saara, onde viverão um romance como os contados nas histórias das " MIL E UMA NOITES ".


Bem, passemos á história real dessa garota de dezesseis anos de idade, que estava passando as férias de meio de ano ( ela cursava o primeiro ano do curso Normal, hoje Magistério ) na casa da família de uma amiga de sua irmã, no Rio de Janeiro.


A garota sonhadora, que ainda continua romântica aos sessenta e oito anos, é a Docarmo, conhecem?


É, foi comigo que tudo aconteceu. Um sonho que perdurou até l972, quando foi irremediavelmente interrompido pela morte.


Era l955, a segunda vez que passávamos férias no Rio. Haviam dois motivos importantes para tal repetição, além da saudade dos amigos : - por ter o Rio um inverno bem mais quente do que o úmido e cinzento de São Paulo e por ficarmos mais soltas, sem a acirrada vigilância de dona Rosa, mamãe, mesmo sendo dona Filó, ( a mãe da amiga, Dina ), também uma " generala ", mas com ela era mais fácil driblar quanto aos horários; contávamos ainda, com seu Athaliba, o pai, que era bem mais maleável, até nos defendia das rabugices de dona Filó.


A casa ficava na Gávea, dentro do Jóquei Clube, onde seu Athaliba trabalhava como Administrador. Como era movimentado nosso dia! Pela manhã, logo depois do café que já tomávamos prontinhas para sair, íamos a uma pracinha ao lado da casa com bancos, levando livros para serem lidos os quais nunca foram folheados além do índice, e flertávamos com os rapazes e eram muitos, que trabalhavam lá ou iam treinar equitação. Divertíamo-nos muito. Depois do almoço tínhamos algumas tarefas domésticas determinadas por dona Filó e mais tarde, por volta de quinze horas, saíamos para passeios pela praia e encerrávamos o dia em alguma confeitaria onde lanchávamos. Depois, só casa nada mais de rua.


Numa sexta feira notamos um alvoroço incomum. Havia chegado uma turma de mais ou menos dez estudantes de Veterinária, em visita ao Jóquei. Para recepcioná-los foi oferecido um almoço no sábado ( para nossa alegria ), seu Athaliba e família estavam incluídos no rol dos convidados.
Dia esplendoroso, céu azul, sol brilhante, música, flores e gente elegante e bonita desfilando pelos jardins que mais parecia o Éden. Eu lá, deslumbrada com toda aquela beleza. Sem perceber, comecei a sonhar.


Tudo transcorreu em ritmo de maravilha. À tardinha um conjunto musical iniciou um shou, onde todos acompanharam cantando e dançando. Em um determinado momento o solista do conjunto solicitou nomes de músicas aos convidados. Sou tímida, atualmente supero, mas naquela época não ousei falar em tom alto que gostaria de ouvir alguma música do cantor Dick Farney, o grande ídolo do meu coração. Não lembro bem como foi, mas devo ter falado alguma coisa que identificasse meu desejo, mas baixinho e naturalmente não foi ouvido. Flertei e dancei bastante com vários alunos, não me interessando particularmente em nenhum, era tudo festa, glamur e alegria. A festa encerrou-se às vinte horas com um breve discurso de agradecimento por parte do dirigente convidado - eram da USP da Escola de Veterinária -, promessas de retorno próximo, etc., etc. e fim. Tudo voltou ao normal


Depois de tanta agitação, só nos restou os comentários que se alongaram até bem tarde, na concepção da época. Por volta de onze horas todos na cama.


Dormíamos. Silêncio absoluto. Eis que de repente, uns violões e uma voz bem desafinada, diga-se de passagem, despertam toda a casa e a vizinhança.


Cinco rapazes tocavam e um cantava músicas de Dick Farney - Um cantinho e você, Não tem solução, Uma loura e Sábado em Copacabana - a minha.


Meu coração estava para sair pela boca, quem eram eles, o por quê de Dick Farney, como sabiam da minha preferência, seria mesmo para mim, não eram as músicas o importante e sim o contexto, o cantor que eu amava. Quando as janelas já estavam abertas e nós debruçados para ver quem estava provocando todo aquele alarido, uma voz destacou-se gritando :


- Menina, qual o seu nome, eu posso amanhã conversar com você?


Dona Filó adiantando-se, respondeu


`- Amanhã é segunda feira, agora já é domingo e nós queremos dormir. A menina é menina e não está em idade de namoricos, vão embora.


- Por favor senhora, estou apaixonado pela sua caçulinha, deixe que eu .....


Seu Athaliba intervém para terminar com aquele constrangimento no meio da noite e permite que pela manhã, às onze horas, ele volte ali mesmo, mas sem cantorias, que estaremos esperando por ele, na janela da sala, por ser no piso térreo onde todos estarão mais confortáveis. Ele agradece, diz que seu nome é Antônio com acento, todos se retiram e ele canta -

Mas vou voltar, para a semanaaa........

Cinco anos depois, diante de um altar transbordando de luzes e flores, dizíamos SIM e tornávamos marido e mulher. Esse sonho foi vivido até que a morte nos separou, depois de dezessete anos de feliz e apaixonada convivência. Hoje tenho duas testemunhas vivas desse romance, as quais se multiplicaram dando-me três maravilhosos netos que amo incondicional e intensamente. Sou feliz e bem resolvida em meus anseios e objetivos e sinto-me muito orgulhosa com as realizações vitoriosas de meus filhos.


Recordar é viver, diz o refrão popular, então eu acabo de VIVER AS EMOÇÓES DA HISTÓRIA DO GRANDE AMOR DE MINHA VIDA.

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