
Texto de Loracy Santana
A CIGARRA E A FORMIGA – (Uma paródia em tempos modernos)
A cigarra com garra e afinco, dedicava ao seu solitário canto. Ensaiava e sonhava com um futuro brilhante. Verão, época que lhe inspirava nas melodias, na poesia e em toda arte. O sol no campo brilhava, enquanto ela cantava e enchia de harmonia todo o matagal, os insetos felizes aplaudiam a generosa música, graciosamente ouviam. A cada dia que passava, ela mais bonita se tornava, com a longa saia transparente, os olhos grandes e buliçosos contemplavam toda a beleza da paisagem. Estudava o canto lírico e se inspirava no popular para a todos a gradar.
Rasteira e matreira a formiga trabalhava, acumulava fartura para época do inverno, já previa a cigarra pedindo-lhe ajuda, teria o prazer em humilhá-la e ensinar-lhe que a boa vida que levava, poderia ser breve, se acabava. Orientada por um grande tanajura, estudiosa dos grandes clássicos da economia mundial do século XIX, a chefe comandava um grande exército de trabalhadores, estabelecia turnos de doze horas, a ordem era trabalhar, produzir e acumular, muitas formigas tombavam exaustas; eram simplesmente retiradas do meio e atiradas ao relento, quem não aguentasse que morresse, ninguém tinha culpa da fragilidade de certas operárias.
A cigarra com o passar dos dias arrumou companhia, já não era solitária. Formou-se uma banda regida pela sua batuta, astuta a artista não dava na vista o seu talento para a arte, passou a ser contratada para apresentações em outras freguesias, sempre ao entardecer, pois a noite foi feita para o descanso. Não ganhava nenhuma fortuna, também nunca teve esse tipo de ambição, a sobrevivência e o aperfeiçoamento era suficiente para a realização dela e do grupo que a acompanhava, alegrava festas e casamentos, a fama corria solta, porém dinheiro nunca via, cantava pela alegria dos outros alegrar. A formiga no comando não aceitava desmando e esmerava na produção e as leis do capitalismo eram seguidas à risca, a grande mentora de Maquiavel era leitora, sabia como comandar.
Vésperas do inverno, seria o inferno para os insetos cantores e trabalhadores; em suas apresentações a cigarra e o seu bando sempre alguma coisa ganhava, precisavam sobreviver, que fosse ninharia, ela agradecia e mais alto e garbosa cantava. A formiga irritada comandava o operariado, a população aumentava e o que acumulava nunca era suficiente, precisavam mais e nas lavouras de soja do fazendeiro encontrou nas folhas macias um meio fácil de fazer sua colheita e dessa feita não foi feliz. O fazendeiro agoniado pelas pragas procurou recursos técnicos junto aos países importadores, as folhas envenenadas para o formigueiro levadas, tiveram o efeito da bomba atômica, a dizimação foi total e quando o inverno chegou tudo que tinham acumulado durante o verão apodreceu no fundo do formigueiro, o fungo sobrou, transformando em adubo e lucros para o fazendeiro.
A cigarra e sua banda voavam em uma excursão para um país vizinho e quando retornaram já era pleno inverno, escondidas parcamente do frio rigoroso, ensaiavam seus cantos tão baixinho que ninguém as escutavam. O inverno passaria certamente e novamente com o brilho do sol, voltaria a reinar alegria entre a banda que agora se transformara em orquestra. Estranhou não ver as formigas trabalharem. Era inverno, se lembrou a cigarra maestra, estavam as amigas certamente em seus abrigos a se fartarem de todo o fruto da exploração que durante o verão pela chefe fora estabelecida, mas afinal de contas cada um vive como pode.
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