
Texto de Loracy Santana
O PAI (com cortes)
Clemente madornava. O Anjo apareceu, ele sentiu a presença do inefável e não fez nenhum movimento, ficou por um tempo suficiente para que fosse alertado dos males e benesses que estariam por vir. Chamou a esposa e pediu para falar com a filha. O clima era de paz, uma tranquilidade inacessível à compreensão humana. Helena, explicou ao marido moribundo sobre a impossibilidade de falar com a filha, ela fora à cidade comprar alguns remédios. Ele ficou desconsolado, fechou os olhos e pensou na aparição e nas suas palavras reveladoras, de tantos enigmáticos segredos há tanto tempo tão bem guardados.
Helena voltou à cozinha, onde preparava o almoço. Não era má, justa apenas; prática. Pensou nas modificações pelas quais o marido passara desde que se casaram. Poderia ter sido diferente, se com o outro tivesse se casado. Seu amor de adolescente, primeiro: rapaz da cidade, tão bem apanhado, rico e estudado. Não deu certo, o sofrimento apaziguado pela bondade de Clemente, moço do lugarejo, quase mato, um lugar atrasado. Ele. simples e comportado, temente a Deus, de religiosidade quase inocente. O moço precisava casar e constituir família; era esse o papel de todo homem. Depois que rompera o namoro, sentiu no abandono: grosseria e indiferença, o que pensava Clemente a seu respeito? Ele, que outrora a pedira em namoro, rejeitara, mas naquele momento nada melhor que aceitar o novo pedido e ter um moço tão decente como marido.
Sete meses de casados e o nascimento no momento não esperado por ele. Prematura e saudável criança, que durante a infância a todos encheu de alegria, até que um dia, Clemente revelou a promessa que fizera ao Padrinho. O Anjo Gabriel o batizara, por insistência da mãe o padre aceitara. Sendo Ele seu padrinho, tinha proteção e certas obrigações. A filha Inocência seria freira quando idade tivesse. Um choque para Helena, sua filha única, nascida de um complicado parto, tão complexo que lhe causara a esterilidade. Calada resolveu que a promessa do marido seria problema dele, não tinha o direito de direcionar o destino de Inocência, embora lhe tivesse obediência, filha tão apegada, deveria ter vida normal, ser um dia casada, com alguém de posses, capaz de mudar o futuro da família, pelo menos dela e da filha.
A igreja e a devoção; o afastamento distanciava o casal, relação sexual era para reproduzir, ele era fiel aos dogmas da religião. Helena levava a sério o distanciamento, mas aquele juramento estranho que mudaria o destino da filha, não aceitaria; tanto foi a insistência do marido que a sombra do ódio invadiu o seu íntimo, momento tenso e perigoso. A menina, mocinha agora, não via a hora do pai mudar de idéia, não tinha vocação para vida religiosa. Doía-lhe a desobediência. A mãe dissimulada, não falava nada, agia de acordo com a sua conveniência. Cuidava como sempre fizera do marido; prato feito na mão; da filha com desvelo e de um velho cachorro, com zelo, esse deu de dar trabalho, adoeceu, ela abreviou as coisas, fria e prática, vidro moído no alimento e o fim do sofrimento do animal. Restava para cuidar, marido e filha, ele doente a sofrer.
Deitado Clemente esperava pela filha. Helena não se aproximou do quarto, Inocência demoraria e muito. A cidade não era longe, mas teria de ir a vários lugares. Pobre homem! Certamente queria pedir algo importante para Inocência, um juramento talvez, uma promessa como atendimento de último pedido. Na volta para casa a moça pensava, se preciso fosse, se para a saúde do pai que definhava, parecia de desgosto, com doença talvez incurável, prometeria ir para o convento, para ele tão importante. O pai era bom e não merecia ser desobedecido. Naquele dia chegaria em casa muito tarde...
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