quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Mário, o mar e as relações humanas




Texto de Gabriela Araujo- baseado no conto simples "Mário e Omar"
É isso que dá deixar um amigo para trás.
A humanidade caminha em direção ao progresso tecnológico, enquanto relações humanas retrocedem.
Respeito, amor, fraternidade são palavras distantes do cotidiano. São conceitos pregados nas missas dominicais ou estampados em embalagens de alimentos. Afinal, agora só se fala em consciência ambiental.
Pergunto a você: o que é consciência ambiental?
A resposta provavelmente virá rápida e decorada. Agora responda: o que está em sua consciência capaz de mudar a relação entre você, a comunidade em que vive e o mundo?
Creio, o homem é um ser egoísta por natureza e sua relações com o semelhante e o meio em ambiente iniciam-se apresentando o final próximo.
Como seria o começo se não existisse o final?
Utilizo esse exemplo para embasar minha tese.
Mário adorava seu único amigo, o mar. Os dois mantinham um íntima e estreita relação apesar da forte oposição da cidade.
Partindo do princípio natural da harmonia entre os seres vivos, o bom menino encontrava amparo na imensidão do sábio e traiçoeiro amigo. Sábio, porém traiçoeiro. Nessa caracterização do mar é entregue a primeira dica do final da então perfeita harmonia e cumplicidade entre os personagens principais.
Apesar das diferenças a amizade persistiu por muitos anos até Mário, já homem, se encantar por uma mulher. Não existiu na história, como não existe no dia-a-dia, a possibilidade de compartilhar atenção, principalmente quando o elemento mulher está em jogo. Assim, Mário se viu obrigado a deixar seu amigo, muito amigo, para trás.
O final. O velho traiçoeiro engoliu com ondas gigantescas toda a cidade e vive a espera do amigo. Ele, certamente, nunca vai voltar.
Mas uma vez é provada a essência egoísta humana. Deixamos os belos conceitos da relação humana para caixas de suco de soja e comercial de margarina, sem sal, é claro!

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Entre amigas - Do Carmo




A Do Carmo trabalhou esse texto aparando-lhe as arestas. Veja o antes e depois:


Entre amigas


Amiga, estou muito preocupada com a Verinha. Como essa maluquinha irá contar para a mãe que está grávida?

Certa vez comentei:” quando estiver namorando pra valer pedirei à mamãe para ir ao ginecologista, assim evitarei dissabores “. Dona Alice quase teve um ataque, disse que sou “ muito avançada para a minha idade “; ela sufoca a filha, nunca têm diálogos, .não é sua amiga, tão pouco lhe dá conselhos reais e agora pobrezinha, cadê o bonitão? Ela sequer sabe o nome correto do cafajeste. O pior será a reação de dona Alice, ou irá surrar a filha ou mandá-la para o interior ou pior, interná-la no colégio onde viveu depois de órfã.

Mamãe quer conversar com dona Alice, embora seja julgada de “muito liberal“.

Verinha teme seu gênio impetuoso; retrógrada e fechada como é não parece ter estudado tanto. É pessoa esclarecida e trabalha desde antes da filha nascer, continua trabalhando, precisa custear o excelente estudo da Vera (por que será que nunca falam do pai?). A vida nada lhe ensinou com tantos reveses? Ela vegeta na época medieval, seu comportamento é medíocre com tanta repressão e austeridade. Adiantou? Veja o que resultou: gravidez e abandono do rapaz. O que me diz?
Verinha está sofrendo, sente-se angustiada, precisa conversar francamente com a mãe, sentir seu apoio e carinho. Terá? O que mais a aflige é o sofrimento e decepção que causará à mãe.

É muito bom termos as melhores mães do mundo, não é?

Bem garota, chega de falar. Como sempre falei demais, já uma hora, minha bela orelhinha está ardendo. Liga-me mais tarde? Vamos rezar em sintonia pela nossa amiguinha, aquela querida maluquinha.

Beijinhos, beijinhos e inté...



**

O texto era originalmente assim:


Amiga, estou muito preocupada com a Verinha. Como a maluquinha irá contar para a mãe que está grávida?
Certa vez comentei na casa dela, que quando estiver namorando pra valer mesmo, vou pedir que minha mãe me leve ao ginecologista, para que eu possa tomar um anticoncepcional e com segurança evitar dissabores. Dona Alice quase teve um ataque, ela acha que não sou boa companhia para a filha, diz que sou “ muito avançada para a minha idade ”; ela sufoca a pobre filha, nunca têm diálogos, são inibidas para conversar sobre sexo, ou como prevenir-se para evitar uma gravidez fora de hora
.Não é amiga da filha, mantém distância alegando respeito. Esse comportamento deixou Verinha vulnerável e nas primeiras palavras doces entregou-se de corpo e alma.
Cadê o bonitão? Ela não sabe, sequer o nome correto do cafajeste.
O que mais me assusta é a reação de dona Alice, que é bem capaz de surrar a filha e manda-la para o interior morar com algum parente que não conhece ou pior, interna-la no colégio onde ela viveu depois que a mãe morreu.
Sabe amiga, a minha mãe quer conversar com dona Alice, mas Verinha teme o gênio impetuoso da mãe; ela é demais austera, tudo é feio, imoral e pecaminoso. Ela é tão retrógrada e fechada que não parece ter cursado uma faculdade renomada. Ela é pessoa esclarecida e trabalhou quando solteira em empresas de grande porte, casou-se teve essa filha, ainda trabalha, ( por que será que nunca falam do pai? ) para poder oferecer excelente estudo para ela, enfrenta batalhas diariamente, será que a vida nada lhe ensinou com tantos reveses? Nada aprendeu com o tumulto do cotidiano? Não tirou proveito algum das lições que, gratuitamente, a vida oferece. Ela vegeta na época medieval, seu comportamento é medíocre, tanta repressão e austeridade, veja no que resultou: gravidez e abandono do rapaz.

Qual a sua opinião quanto a minha mãe ir conversar com dona Alice, mesmo sabendo que ela acha minha mãe. “ muito liberal para o seu gosto ".
Com muita delicadeza inicia a conversa falando sobre a juventude e com sutileza ela comenta, como se tudo estivesse esclarecido entre mãe e filha, sobre o enxovalzinho do bebê. Será bom? Vale a pena tentar? Ou irá piorar.
Verinha está sofrendo, sente-se angustiada, sufocada, precisa desabafar-se, .confidenciar-se com a mãe, sentir apoio e carinho, Ela sofre mais com a distância que a mãe impõem, do que com o abandono e as complicações e preconceitos que irá enfrentar como mãe solteira. Sabe que o futuro será de lutas homéricas para manter a criança junto dela; o erro não é do bebê e ele não merece castigo, ela assume a culpa do deslize, ambos necessitam de muito amor e carinho, coisa que somente mãe sabe dar.
O que mais a aflige é o sofrimento e decepção que causará à mãe.
Ela não está sofrendo por ter de abdicar tudo ou quase tudo que a juventude proporciona, sabe que agora o filho é prioridade. Todo o tempo que seria para seu lazer, será dividido com a criança. Mas será que hoje ela tem lazer? Não, não tem.
A mãe sempre encontra alguma coisa para fazer junto com ela, exatamente no dia em que acontece uma festa, por exemplo.
Que bom que nossas mães não são DONAS ALICES. Felizmente temos as melhores mães do mundo. São nossas amigas, ouvem e conversam conosco, estão sempre participando de nossos problemas, por mais fútil que sejam, importam-se com tudo o que nos diz respeito,
Ai amiga, que pena tenho das duas!
Bem garota, chega de falar. Como sempre falei demais, estamos há uma hora ao telefone, minha bela orelhinha está ardendo. Liga mais tarde? Vamos rezar em sintonia pela nossa amiguinha maluquinha.
Beijinhos, beijinhos e até. .........

domingo, 24 de agosto de 2008

Segundas intenções - Ana Maria




Alô? Oi querida que bom encontrá-la em casa, precisava contar uma coisa engasgada aqui ó. Sabe o padre que a gente conheceu naquela festa fuleira lá em São Paulo?

Mas como não lembra? Não foi você mesma que me convidou dizendo não ter nenhuma alma caridosa para te acompanhar na festa beneficente daquele padre maluco? Foi sim senhora!

Lembrou, né ? Sabia que não esqueceria, afinal foi lá onde aconteceu aquele encontro desagradável com aquela fulaninha toda “si si”. Como era mesmo o nome dela? Um mau gosto naquele vestido de bolinhas coloridas, credo! Engraçado que essas “rodadas de baiana” são inesquecíveis, mas estou ficando velha, né ?...

Isso não é importante agora, sabe o padreco “cido” ( todo aparecido ele!) ? Então menina, ele tentou voar nuns balões de gás por ai, acabou escafedendo-se no mar.Ficou sabendo? O cara edoidou da carochinha, coitado! Ficou uns dias desaparecido até que ontem encontraram o sujeito mortinho da silva numa praia perto da minha casa em Floripa. Menina, estava irreconhecível, um horror! Estou pensando com meus botões, será que a renda daquela festa foi toda diluída nesse projeto sem nexo de viajar em balões, ou ainda sobrou alguma grana pra gente fazer um “auê” lá em Sampa?

terça-feira, 19 de agosto de 2008

O QUE É QUE A BAIANA TEM? - Do Carmo




O QUE É QUE A BAIANA TEM?


Interessante essa pergunta. Sempre eu quis saber o que é que ela tem, porém nunca ouvi falar de sua essência de sua sensibilidade. A imagem que é passada mostra uma mulher charmosa, sensual, naturalmente bonita, com roupas muito branca, cheia de babados rendados e engomados, vários colares e pulseiras de contas coloridas, turbante ornamentado com flores e frutas, calçada com douradas sapatilhas que rodopiam piruetas com saias rodadas e armadas.

Descreve-se uma baiana como sendo figura folclórica, um mito. Mas o que ela é?

Cogitou-se em descobrir como bate seu coração? Como deve ficar apreensiva quando seu amor sai para a insegurança do mar ganhar o sustento da família? Será fácil passar um dia causticante sentindo-se impregnada do perfume, suado e oleoso, exalado dos acarajés? Como estarão seus pés e pernas ao levantar-se do banquinho tosco em que ficou sentada por horas, aquecendo-se com o calor da frigideira? Nada foi dito. Sua imagem é de glamour.

Teria essa mulher tão decantada, tido tempo para apreciar um por de sol a beira mar, passeando?

E nas estupendas noites de luar, teve oportunidade de ver as estrelas deitada nas areias quentes da praia, namorando seu amado?

E seus olhos de lua cheia como ficam? Apenas choram.

Ela é um pesadelo!

(texto seco) Reza braba (revisado) - Ana Maria



Soco forte no queixo. Tonteou prum lado, e lá vinha outro murro de punho fechado. Tonteou de novo. Caiu o pobre. O rosto inchou na hora. A boca floreou. O sangue verteu. As pernas trogloditaram pela estrada seca em desesperada fuga. O homem tinha medo da surra, mas não podia evitá-la. Apenas pedia “PelamordeDeus pára cum isso”. Já vai pra lá mês que apanha quando passa pela trilha, coitelinho. Apanha por apanhar...

O amor que morava no coração dele, rareou. Chegou a raiva. Muita raiva dos Nereu.

No espelho de casa viu os olhos avolumando. Pensou nos Nereu. A cara arredondava pra caber os olhos crescidos. Incharam, cresceram de dar medo. Duas bolas acesas na cara redonda do infeliz. Pensou na raiva. Chamou a mulher aos berros. Assustada, benzeu-se e entoou uma reza em voz alta. Era o coisa ruim! - disse ela. Ele rezou também. De nada adiantou. Suas orelhas se movimentavam sem querer, à olhos vistos. Incharam e cresceram, cresceram de dar medo. As duas orelhas ficaram enormes, maiores que a cara. A mulher grita. Ele espuma de raiva. Ela reza fazendo o sinal da cruz. De nada adianta...

Mário e Omar - Gabriela Araujo




Mário não poupava o mar de nada. Contava os segredos, fazia confissões, questionava o amor e, quando reclamava do silêncio, seu fiel ouvinte respondia banhando salgado o único amigo.

Toda a cidade mal dizia a amizade entre o bom menino e o velho traiçoeiro, além de roubar a vida de inocentes, agora comia todos os peixes deixando os moradores famintos e furiosos.

Mas, Mário sabia, o amigo, embora teimoso, era inocente. Como? Ele próprio respondeu ao pequeno. Disse das travessuras da lua e do vento responsáveis pelos dias de tormento e do sol, apaixonado se mostrava mais forte e brilhante para conquistar a amada.

O garoto explicava. Bastava prestar atenção e a voz do mar poderiam escutar. Qualquer dúvida, qualquer pergunta ou problema ele conseguia solucionar. Ninguém acreditava. A sentença para o pobre, isolamento. Nada de pesca, nada de barcos e brincadeiras. Era sozinho e sozinho iria ficar.

Mário não se importava e, todas as manhãs, o amigo visitava. Chegava chamando Omar, Omar, e ele respondia balbuciando alegre espumas para lá e para cá.

Passaram-se anos até que Mário se encantou pelo ser mais puro já encontrado. A menina dos cabelos melados era doce demais para tanto gosto salgado. Mário não teve alternativa, deixou a cidade e sofrendo despediu-se do amigo.

O mar, enfim sozinho, gelou-se todo da frieza do menino. Furioso, engoliu a cidade que zombava do destino infeliz, prometeu nunca mais calmaria, disse que do doce o amigo um dia esqueceria e Omar, Omar chamaria.

Ele ainda aguarda inquieto, abandonado e salgado o retorno de Mário.

Contas pagas. - Ana Maria Maruggi



Noite fria na dura calçada da capital paulista. Uma névoa pintava os ares e turvava os olhos da profissa exageradamente maquiada que baforava um Free com filtro. A roupa inadequada para o clima era apropriada para atrair olhares masculinos. Mas o dia estava fraco. Passava da meia noite e nenhum cliente apareceu.

Geni era diferente das outras moças, tinha os cabelos naturalmente ruivos e os lábios atraentes, vestia-se com estilo próprio e era a mais procurada. Mas estava cansada. O salto alto já a incomodava quando enroscava nos buracos do cimento. As esbeltas pernas geladas cobertas por meias pretas movimentavam-se com elegância de um lado para outro no passeio público. Os seios quase à mostra exuberavam como grandes frutas maduras. Vez ou outras ensaiava poses ousadas com o poste de iluminação. Mas não havia ninguém na rua além das moçoilas.

Tinha que pagar o aluguel no dia seguinte ou corria risco de ser despejada. Há muito pensava em se mudar para um apartamento só dela, mas os ganhos ainda não eram bastante. Esperava pelo cavalheiro estrangeiro que prometeu vida séria num país que ela nem sabia dizer o nome. O nome dele também era tão complicado de dizer que ela nem ousava. Começa com V, dizia ela.

Um farol então quebra a esquina e quase cega os olhos verdes da moça. O automóvel avança devagar próximo da calçada e como numa vitrine o motorista passa os olhos pelas dezenas de raparigas que precisam ganhar a vida. A luz do freio se acende ao lado de Geni. Ela se curva sexy e encara seu cliente com um enorme sorriso de contas pagas. A porta se abre para ela que altiva se senta ao lado do motorista. Quase não entendia o que ele perguntava, mas respondia “Yes”. Foram para um luxuoso hotel localizado no bairro dos Jardins onde parecia uma rainha sobre o tapete vermelho do hall. Foi quando notou que o cliente era seu estrangeiro.

Geni nunca mais foi vista na calçada de lama. Mas escreveu para as amigas da calçada da fama...

Vou casar! - Maria do Carmo



VOU CASAR... CONTO A VERDADE?


Quanta angústia, o que fazer. Dizer toda a verdade ou continuar em silêncio e deixar acontecer o inevitável. Não estarei sendo covarde? Penso que sou ainda mais, pois uma pessoa sóbria e de caráter não ocultaria nada, por pior que fosse a revelação.

Verdade, sempre a verdade.

Mas que dilema, fico sentindo vertigens ao imaginar-me contando o meu defeito para o grande amor de minha vida. Crueldade, esperar até dias antes do casamento, muita falta de respeito. Ái! Preciso de iluminação...

Um MILAGRE!

Com efeito, um milagre poderá salvar-me e como estamos no final do ano, tenho certeza: a prece será ouvida; lembro-me de uma oração que realiza desejos na noite de Natal, vou fazê-la mesmo sabendo que o milagre de Natal é negado por jovens.

O mais intrigante neste comportamento é que coisas mais graves e feias eu não ocultei, esclareci no dia do nosso conhecimento. Agora, qual a razão de eu julgar tão traumatizante essa frustração secreta, depois de ter contado, por exemplo, que tenho uma perna mecânica?

Quanta dúvida! Estou em pânico! Preciso dar solução ao drama.

Devo fugir manquitolando com a perna mecânica ou corajosamente enfrento a situação:

escancaro a boca e sem pudor algum mostro meu dente canino implantado.

Ufa! Ponto final.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Tô cansada - Roxane



Quem sabe ele tenha suas razões
de ser bravo,
de ter mau-humor,
de pegar no meu pé,
de ser chato!

Quem sabe de sua história
com seu pai milíco,
mãe frustada,
família desunida,
que lhe deu pruridos!

Quem sabe?
Porque eu não sei,
e nem quero saber.
Tô cansada!

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Hernandes, o baú e o livro - Gabriela Araújo



Texto de Gabriela Araujo
O jovem milagre negava a noite de natal
O velho livro de história não conseguia mais entender o mundo. Foi no ano de muitos anos atrás que o culto e sábio contador das mais fantásticas histórias, desbravador dos sete mares e único dono da verdade fora deixado servindo de apoio para sanar o rebolado instável do baú responsável pelas freqüentes brigas matrimoniais e por ocultar irrelevantes objetos dos Lima .

Aquele móvel era misteriosamente secular, única herança, cuja dona Carmela fazia questão de exaustivamente insultar, recebida por parte da família de Hernandes. De fato, o baú não era funcional e quando posto como peça decorativa capaz de estabelecer desarmonia entre cores e desordem no minucioso espaço organizado por Dona Carmela.

Como era pesado o coitado! Seu destino não poderia ser diferente. Encontrou repouso junto a estante de livros no escritório de Hernandes, único cômodo protegido e intocado pelas garras da Dona.

Até a chegada do baú, o livro havia encantado noites, aquecido corações das donzelas, encantado crianças, ludibriado a vontade dos jovens para guerras e a ganância de Hernandes pela vida. Quando colocado como apoio ao imprestável, torto de tantos insultos, remoeu seu trágico medíocre fim. E remoer era o única coisa que pode fazer nos muitos anos depois até ser resgatado pelo inventário.

Ocioso, o fantástico observou como tudo estava tão diferente, a começar pelo sopro do vento nas páginas amareladas. Soube, logo na releitura dos parágrafos iniciais, a estapafúrdia novidade, incabível para o detentor de páginas de celebrações e distintas crenças, o jovem milagre negava a noite de natal.


Delírio - Aglaé Torres



Frase nº 2: “A novidade é que na noite de núpcias ele fugiu furtando a perna mecânica...”


DELÍRIO

Na noite que antecedeu o enlace matrimonial, o Sonho!

Ele se viu fazendo amor com a noiva-perna mecânica. Ela infiltrava-se por entre as pernas, descia pelo pescoço. O pé-mão alisando-lhe por inteiro.

Acordou trêmulo. Suor frio. Qual o significado do pesadelo? Consultava a memória tentando descobrir.

A Perna rebelou-se sendo deixada de lado, observando-os amarem-se sôfregos. Ele nem se importava com a retirada dela, mero objeto descartável. Mal sabia! O ciúme fervendo a fogo lento tramou a vingança: tornar-se desejável. Captar atenção.
Dominar.

Noite de núpcias. A noiva em retirada embelezava-se. A perna mecânica, na porta, encostada. Emitindo cintilações. Ele rememorou a noite anterior. O susto, motivo da fuga e do “seqüestro obrigatório” da amante de metal.

Ele despenca na noite conivente carregando a dominadora.

A noiva impossibilitada de segui-los. Seus gritos soluçantes acordaram o Motel Cinco Estrelas:

- Que jeito estranho de fazer amor!

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Texto: O segredo do mecânico - Ana Maria Maruggi



O segredo do mecânico

No Natal o mecânico esperava por um milagre. Enfático em suas orações pedia proteção aos Reis Magos . Espera uma luz solucionadora de problemas.

Ia se casar em breve e ainda guardava íntimos segredos. Coisas bobas como: o mau cheiro que exalava do pé esquerdo todas as noites. As ásperas mãos tratadas sempre antes dos encontros. As cáries escondidas não corrigidas por falta de dinheiro. Tudo o atormentava. Mas a perna mecânica o deixava inseguro. O lado direito tinha ficado preso sob um veículo enquanto o consertava e precisou amputá-la. Não contou nada a Madalena até aquele dia.

Casamento marcado para Janeiro com preparativos avançados. E o mecânico desesperado com tantos segredos. Temia pela noite de núpcias quando tudo se revelaria de maneira grosseira. Os amigos aconselhavam a contar tudo para a moça antes de gastar os tubos de dinheiro sob pena de nada se concretizar. Mas ele titubeava, não queria perder a amada por isso nada revelava. Quem sabe para ela nada signifiquem esses segredos e o amor dela por você seja tão grande que ela nem se incomode com esses segredos, diziam os amigos. Mas ele refletia, refletia, e nada fazia. Quem sabe ela tem outros defeitos e até piores e ela também tema revelar para você, insistiam os amigos. Mas o jovem mantinha-se calado.



Chegou o Natal quando ele acreditava no verdadeiro milagre. Em orações enfáticas pediu que os males fossem curados para ele puder ser feliz com Madalena.



E pliiiim! Uma luz colorida se espalhou pela sala escura e ele sentindo-se estranho sentou-se na poltrona diante da árvore de Natal de onde viu tudo acontecer. A porta foi se abrindo lentamente e uma imagem difusa de um Papai Noel surgiu entrando com uma lanterna acesa na mão. O mecânico não conseguia ver o rosto, mas acreditava no milagre de Natal e rezou em voz alta. Noel ajoelhou-se diante dele e aos poucos foi removendo a velha perna mecânica amiga de mais de doze anos. O rapaz rezava enfático e agradecia pelo milagre da Noite de Natal. Papai Noel então se levantou devagar segurando a prótese nas mãos e saiu pela porta deixando a lanterna no chão ao lado do nosso jovem. As preces podiam ser ouvidas ao longe.

Ali amanheceu nosso mecânico sem seu milagre e sem sua perna.

E longe já estava o ladrão de prótese.



...

Frases criadas partindo de outras feases - Ana Maria Maruggi

FRASES OFERECIDAS:
O primeiro jovem negava enfático o milagre na noite de Natal.
A novidade é que na noite de núpcias ele fugiu furtando a perna mecânica.

Frases criadas:


. Natal negava a novidade.
. A noite de núpcias negava o milagre!
. O jovem negava as núpcias.
. O Natal enfático fugiu de perna mecânica.
. Natal, a novidade mecânica.
. A noite fugiu.
. A novidade milagrosa na noite de núpcias: a perna mecânica.
. Milagrosamente, as pernas mecânicas fugiram.
. O jovem negava a enfática mecânica da noite de núpcias.
. Ele era a novidade milagrosa da noite.
. Na noite de núpcias o jovem fugia da perna mecânica.
. O milagre enfatizou a novidade nas núpcias do jovem mecânico.
. O jovem mecânico fugiu na noite de núpcias.
. A noite milagrosa do Natal negava as núpcias do jovem.
. A enfática perna mecânica fugia na noite.
. A primeira noite mecânica de núpcias do jovem.
. A novidade é que ele fugiu do jovem na noite de núpcias.
. Milagre! A perna mecânica fugiu!
. O jovem negava enfático que furtou a perna mecânica.
. Na noite de núpcias, o primeiro milagre!
. O milagre negava o Natal!
. O Natal negava a noite!
. O Natal enfático negava milagres!
. O primeiro jovem fugiu na noite de núpcias.
. Que Natal mecânico!
. Ele negava a fuga.
. Ele negava as núpcias.
. A novidade era o milagre na noite de núpcias.
. As núpcias fugiram mecanicamente.
. O jovem furtou o mecânico na noite de núpcias.
. A perna enfática negava o milagre na noite de Natal.
. As núpcias mecânicas negavam o primeiro jovem.
. A perna do jovem era a novidade na noite de núpcias.
. O Natal era a primeira novidade milagrosa.

sábado, 9 de agosto de 2008

Lição de casa



LIÇÃO DE CASA

Para a próxima quarta feira dia 13 de agosto, temos a seguinte tarefa:

A Bia nos passou as duas frases abaixo as quais foram extraídas de um texto da Lygia Fagundes Telles e com essas frases faremos contos curtinhos partindo da combinação de ambas as frases, mas antes criar 50 frases partindo dessas idéias e usando as mesmas palavras das frases dadas (como nos exemplos que foram feitos em sala na última quarta feira):

FRASE 1 - O primeiro jovem negava enfático o milagre na noite de Natal. (página 18 do texto da Lygia F. Telles).

FRASE 2 - A novidade é que na noite de núpcias ele fugiu furtando a perna mecânica. (página 20 do texto da Lygia F. Telles)

Ela pediu para lermos o texto da Lygia na íntegra, apenas depois de fazermos nossa lição de casa. Quem ainda não tem o texto poderá recebê-lo na próxima quarta feira.

GENTE NOVA NA TURMA!

Chegou a AGLAE com pique total!
Ela é amiga da Do Carmo e já foi se inteirando bem do objetivo da oficina.
Seja bem vinda ao grupo!


Para quem não sabe este blog acolhe todos os textos dos encontros da Oficina Escre(r)ver.

Encontro de 06 de agosto

PRIMEIRO ENCONTRO DE AGOSTO

Fizemos exercícios de criatividade com base em duas frases oferecidas:

frase 1 - As formigas comeram o doce que foi deixado sobre a pia.
frase 2 - Os meninos amanheceram tristes depois da derrota.


Tivemos que criar 20 frases com as palavras extraídas dessas duas frases, e somente palvras das frases. Podíamos alterar gênero e nùmero, ou substivar adjetivos e adjetivar substantivos. Eram combinações de palavras que tinham um sentido. Foi divertido o resultado.

E surgiram frases assim:
O que foi deixado amanheceu triste.
Amanheceu a doce derrota das formigas.
O doce de formigas foi a derrota dos meninos.
A tristeza formigou amanhecida na derrota.
O doce, os meninos, as formigas, amanheceram sobre a derrota.
A tristeza sobre a pia.
Foi a formiga que deixou o menino depois da derrota.
etc

E criamos um pequeno conto com base nessas idéias das frases que criamos em sala, mas para o conto já podíamos colocar palavras novas.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008










Da sacola saiam gargalhadas espalhafatosas que até tremiam as alças molengas. A mão enluvada penetrou lentamente provocando mistério e trazendo a pomba que alçou vôo imediatamente.
De repente um livro amarelo saltou para fora assustando a criança curiosa. Do livro voaram porcos, lobos, coelhos, raposas, e outros animais dos contos de fadas, e deu pra ver um pedacinho da imagem do Pequeno Príncipe.
E lá vinha uma cartola preta de onde escapuliam línguas de tintas. O lápis ia rabiscando o espaço criando gnomos e fadas, rainhas e castelos, enquanto a tinta ia colorindo tudo.
A sacola foi aos poucos se escancarando e a mão foi lentamente trazendo criaturas pequenas e delicadas. Eram os incansáveis habitantes da Terra do Nunca.
E lá vinham outras gargalhadas estridentes. E a sacola foi aos poucos desaparecendo dentro da luva branca.


A OFICINA CONTINUA EM AGOSTO!

Já sabemos que a nossa oficina vai continuar em agosto, e provavelmente teremos encontro já nesta quarta feira.

O que ficou combinado por enquanto:

- Cada um de nós vai pagar R$80,00 por mês para Bia. Desta maneira ela não larga nossa turma para ir dar aula de inglês.

- Os encontros começam agora em agosto e terminam em setembro. Serão dez encontros.

Mantenham-se atentos para nosso reinício.

Nos veremos na quarta feira (talvez).

Ana Maria

terça-feira, 29 de julho de 2008

Meu aniversário - Do Carmo



Neste mês, dia dezesseis, completei setenta anos. Pensei em fazer uma comemoração com minha família e meus amigos, coisa simples e sem grandes gastos, mas fui vetada pelo meu genrinho, que ponderou com argumentos bobos, porém como sou obediente, conformei-me.

Mas, querido Rosadinho, tive somente " três " comemorações, sendo que a preparada pela Bequinha e o Marco, quase me derrubou, precisei de muita força para aquentar. Na realidade comemorei 210 anos - 3x70. Veja : dia 15, uma amiga danadinha, pediu que eu fosse rezar com ela pela recuperação da saúde de uma pessoa que eu não conhecia. Até ai, sem mistérios. Preparei-me com uma oração em forma de corrente, que leva uma hora para terminar; marquei todos os textos citados da Bíblia, a na hora marcada, lá fui eu compenetrada para a reza. Subo até o sétimo andar, toco a campainha e quando a porta se abre tcham...... ouço - Parabéns a você, cantado pela amigas queridas - Benê, Mena, Adelina, Aninha, minhas vizinhas e mais a traidora da Lilica, minha ajudante. Haja coração para agüentar. Jantar com petiscos e antepasto sírio, saladas, pizzas, vinho, sorvete, bolo decorado e com velinha. Depois da choradeira, que acabou sendo geral, recebí presentes. São incríveis essas meninas.



No dia 16, foi uma reunião habitual, bolo, torta salgada, biscoitinhos de pimenta e mais fotos, porque na véspera também teve fotos. Noite muito feliz, reunião com os mais queridos do coração e alguns amigos muito íntimos. Tudo em harmonia, alegria e muito amor. Estava marcado pela Rebeca, no dia 19 sábado, um almoço em algum restaurante para comemorarmos novamente meu aniversário e o do Marco, meu genrinho, que é dia 20. Como é hábito, fico pronta esperando eles viram buscar-me. Desço com um presente para o Marco quando estão chegando, Rodrigo e Maria Vitória, minha provável futura neta, e vamos para a casa deles, pois o Rodrigo diz que a mãe esta atrasada. Até ai, nada de anormal. Chegamos, ele estacionou o carro na garagem, do nada a Rebeca surgiu e disse que o Marco estava atrasado, subimos conversando e como é normal em mim, não prestei atenção e quando o elevador parou e desci, a Bequinha abriu uma porta e disse: - mãe, entra. Entrei e vi que estávamos no Salão de Festas e que meu amigos dos Grupos de literatura e do Páteo e os do meu prédio estavam lá, batendo palmas e me abraçando. Bem, abraçando depois de eu ter me agarrado na Bequinha e chorado as lágrimas mais quentes e felizes de minha vida. Não acreditava no que estava acontecendo. Foi uma surpresa surpreendente, maravilhosa, sem termos de qualificação. Nunca me senti tão amada e querida. Uma montanha de presentes estava formada em uma mesinha no jardim perto da piscina. Um bufê de crepes servia bebidas e iniciava o almoço. Chorava e ria por quase uma hora, não sabia se abraçava meus amigos ou parava para fotos com todos, uma emoção indescritível. Fiquei em estado de êxtase até segunda feira, quando comecei a guardar os presentes e me certificar de que era tudo verdade. Bequinha conseguiu tramar tão bem tudo e sem levantar suspeitas, porque teve uma cúmplice e aliada aqui, dentro de minha casa, que me perguntava nomes, sugeria arrumação em meus cadernos e pasta de textos dos amigos, querendo saber o nome, vendo a lista dos participantes dos grupos, traindo-me debaixo de meu nariz. Lilica. Mas que traição maravilhosa, quanto carinho nesses segredos. Eu queria uma comemoração em meus setenta anos, mas jamais imaginara que seria tão maravilhosa, tão ........... tão cheia de amor. Deus me deu um ANJO em forma de FILHA que tem o nome de REBECA, A MULHER INESQUECÍVEL.. .

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Carta da Do Carmo para a amiga Raquel






MINHA CASA, 08 DE JULHO DE 2008.

QUERIDA AMIGA RAQUEL:

Saudade, há tanto tempo que não conversamos, tenho mil novidades para contar-lhe, estou em férias das minhas oficinas tão amadas.

Desde o dia 07 de maio estou participando de encontros semanais, às quartas feiras, na Livraria Nobel das Perdizes.

Você não imagina como tem sido agradável e produtivo esses encontros - aulas. Tenho aprendido a ver meus textos com olhos críticos, já consigo detectar meus vícios de escrita. Consigo ser mais precisa e não me perder nos adjetivos, bem como nas explicações inúteis, como se o leitor fosse bobo, não entendesse nas entrelinhas.

Estou, como você sabe, também freqüentando a maravilhosa Casa das Rosas, não abro mão das manhãs deliciosas, mesmo com frio e chuva, da oficina Escrevivendo, não abandono a doce Karen, nossa MESTRA, sempre suave e alegre, orientando pacientemente todo o grupo.

Se não fosse a perspectiva da vinda do Gustavinho, aqui para casa, passar uns dias comigo, sinceramente, entraria em crise de isolamento. Só nos finais de semana é que tenho a companhia da Rebeca, Rodrigo e Marco, pois trabalham e o RO, estuda.
Bem, minha amiga, mande notícias e se vier para Sampa, não esqueça desta sua velha amiga e amiga velha.

Um saudoso abraço e carinhoso beijo. Brilho para a família.

Docarmo.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Dicas de Leitura


Lembre-se que essa é uma lista de sugestões, tem um pouco de tudo, mas não termina por aqui de maneira alguma!



Agora você tem, pelo menos, um livro para ler por mês...



1. A Rosa do Povo - Carlos Drummond de Andrade

2. Nova antologia poética - Mario Quintana

3. A vida como ela é - Nelson Rodrigues

4. O Vampiro de Curitiba - Dalton Trevisan

5. Feliz Ano Novo - Rubem Fonseca

6. Diário do Farol - João Ubaldo Ribeiro

7. A Hora da Estrela - Clarice Lispector

8. As Horas nuas - Lygia Fagundes Telles

9. O pirotécnico Zacarias - Murilo Rubião

10. Balé Ralé - Marcelino Freire

11.Um jogador - Fiódor Dostoiévski

12. Cartas a um jovem escritor - Mario Vargas Llosa


Best-sellers (não tenha preconceito!)


1. A menina que roubava livros (inovador e audacioso)

2. Equador (ótima narrativa lusitana)

3. A elegância do ouriço (a tradução para o português não está brilhante, mas o livro é bastante interessante. Um pouco complicado para os preguiçosos!)

4. Castelo de vidro (li o original e desconheço a tradução para o português. Interessante "biografia"!)


FILME: Pecados íntimos

TEATRO: Alma Imoral


DICAS


1. Procure ler os clássicos. Em se tratando de literatura estrangeira, lembre-se que uma boa tradução é "fundamental" para que o original não se perca. Informe-se sobre as boas editoras e tradutores.


2. Procure ler vários gêneros literários. Evite o preconceito, você poderá se surpreender!


3. Freqüente livrarias, bibliotecas, feiras de livros, exposições, shows, performances, etc. A cultura enriquece.


4. Aprenda de tudo um pouco. Do pouco surjirá o tudo! Estude filosofia, história, psicologia, literatura, cinema, etc.


5. Procure conhecer seu olhar sobre o mundo. Que olhar é esse? Há nele amorosidade? Ódio? Despeito? Humor? E aprenda a ver o mundo também com outros olhos. Um escritor precisa conhecer outros olhares, vozes, sentidos, sentimentos...


6. Trabalhe a memória, talvez o mais caro recurso do escritor. Repare nas pessoas, lugares, bichos, viagens, objetos, casos, etc. Se não é bom nisso, tenha sempre em mãos um caderninho para anotações.


7. Apague, substitua, reescreva, rasgue, delete mil vezes se for preciso. Não tenha medo de "cortar". Nem tudo que escrevemos deve ser aproveitado. Não subestime o leitor! Mas tenha cuidado para não cortar demais. Bom senso. Esse é o segredo.


8. Você pode despoluir seu texto. Sublinhe e verifique se adjetivos, advérbios, e pronomes são mesmo necessários e não redundantes. Elimine ou substitua: "que" , "era", "a sua", palavras repetidas, frases que nada acrescentam ao texto, marcadores temporais desnecessários, ou outros vícios que você tenha e já lhe são conhecidos. Peça ajuda a um colega que goste de literatura. Muitas vezes nossos "vícios" nos passam desapercebidos!


9. Considere o que dizem, mas tenha em mente que nem tudo que foi bom para alguns, será para você (inclusive o que EU digo!). Cada um tem sua própria voz, estilo, tempo. Seja você mesmo! E lembre-se: a "unanimidade é burra" (Nelson Rodrigues).
10. Ser criticado é difícil, mas encare as críticas como uma chance de aprendizado. Você poderá discordar do que dizem, mas poderá também encontrar preciosidades nos "comentários construtivos" daqueles que torcem por você . Abra-se para isso.


11. Não desanime. Se você ver, poderá crer. Se você crer, poderá ver.
Mãos à obra e boa criação literária!


Um beijo saudoso do Escre(R)ver.
Bia O.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Uma música, um sonho, uma história de amor






Texto da Do Carmo

UMA MÚSICA ... ... UM SONHO ...
UMA HISTÓRIA DE AMOR



Foi uma verdadeira HISTÓRIA DE AMOR. Sonhos podem ser materializados e romanticamente vividos, tudo depende da intensidade com que se sonha.

Não foi diferente com aquela mocinha sonhadora que no mês de julho do longínquo, mas tão presente ano de 1955, inicia seu SONHO DE AMOR. Quem é ela? Que sonho de amor acalentava?

Bem, passemos á história real dessa garota de dezesseis anos, que estava passando as férias de meio de ano na casa de família amiga dos pais, no Rio de Janeiro.

A garota sonhadora e romântica, que continua igual aos setenta anos, é a Docarmo, conhecem? Pois é, foi comigo que tudo aconteceu. Um sonho que perdurou até l972, quando foi irremediavelmente interrompido pela morte.

Era l955, minha irmã e eu, resolvemos passar as férias de julho, pela segunda vez, no Rio, aqui sofríamos uma acirrada vigilância de mamãe, e lá, embora dona Filó fosse uma " generala "; contávamos com seu Athaliba, que defendia a filha, Dina e nós também, das rabugices de dona Filó.

A casa ficava na Gávea, dentro do Jóquei Clube, onde seu Athaliba trabalhava como Administrador.

Como eram movimentados nossos dias ! Flertávamos com rapazes que trabalhavam no Jóquei ou que iam treinar equitação. Pelas manhãs, praia, as tardes deliciosos passeios à cidade, mais flertes, confeitarias, flertes, depois das 18 horas, só casa e nada mais .

Em uma sexta feira notamos um alvoroço incomum. Havia chegado uma turma de dez estudantes de Veterinária da USP., em visita ao Jóquei. Ofereceram um almoço no sábado e ( para nossa alegria ), seu Athaliba e família estavam incluídos no rol dos convidados.

Dia esplendoroso, festa maravilhosa, eu como sempre...sonhei. À tardinha apresentou-se um conjunto musical e todos acompanhavam cantando e dançando. Em um determinado momento o solista do conjunto ofereceu atender pedidos. Sou tímida, atualmente supero, não ousei falar que gostaria de ouvir alguma música do cantor Dick Farney, meu ídolo. Não lembro bem como foi, mas devo ter falado alguma coisa que identificou meu desejo, mas baixinho e naturalmente não foi ouvido. Flertei e dancei a tarde toda, não me interessando porninguém, era tudo festa, glamur e alegria. A festa encerrou-se às vinte horas e tudo voltou ao normal
Depois de tanta agitação, só nos restou uns comentários e onze horas, todos na cama.
Dormíamos. Silêncio absoluto. Eis que de repente, uns violões e uma voz bem desafinada, diga-se de passagem, despertam toda a casa e a vizinhança.

Cinco rapazes tocavam e um cantava as músicas de Dick Farney - Um cantinho e você, Não tem solução, Uma loura e Sábado em Copacabana - a minha música, a que devo ter balbuciado. Corremos para a janela.

Meu coração estava para sair pela boca, uma voz destacou-se::

- Menina, qual o seu nome, eu posso amanhã conversar com você?
Dona Filó adiantando-se e respondeu :

`- Não. Amanhã é segunda feira, agora já é domingo e nós queremos dormir. A menina é menina e não está em idade de namoricos, vão embora.

- Senhora, estou apaixonado pela sua caçulinha, deixe que eu ...........

Seu Athaliba intervém para terminar com aquele constrangimento permitindo que pela manhã, às onze horas voltasse. Ele agradece e diz :meu nome é Antônio, com acento, todos se retiram e ele vai cantando -
Mas vou voltar, lá pra semaanaaa........

Cinco anos depois, diante de um altar transbordando de luzes e flores, dizíamos SIM e tornávamos marido e mulher. Esse sonho foi vivido até que a morte nos separou, depois de dezessete anos de feliz e apaixonada convivência. Hoje tenho duas testemunhas vivas desse romance, as quais se multiplicaram dando-me três maravilhosos netos que amo incondicional e intensamente. Sou feliz e bem resolvida em meus anseios e objetivos e sinto-me muito orgulhosa com as realizações vitoriosas de meus filhos.

Recordar é viver, diz o refrão popular, então eu acabo de
VIVER AS EMOÇÓES DA HISTÓRIA DE AMOR DE MINHA VIDA.

Pai, chefe ou Rei (texto refeito)




Texto da Do Carmo
PAI ? CHEFE DE FAMÍLIA OU UM REI ?
(REFEITO)


Segundo o depoimento da filha caçula, que passo a narrar, fica para vocês, leitores, o julgamento final.

Nascida em uma família de classe média no final dos anos trinta, foi criada e educada tal qual uma boneca de porcelana, uma vez que seu nascimento deu-se dezoito anos depois do casamento dos pais.

Tudo que uma garota rica da época tinha, esse homem lhe dava - tanto materiais como culturais.

Por amor à família, estudou, cresceu como profissional, construiu um mundinho de conforto e amor para a mãe, que sempre colaborou costurando, e para as duas filhas.

Conta-nos ela com emoção, qual era a tônica predominante de seu comportamento : O bom humor.

Dentre as inúmeras histórias que contou, vou rapidamente transcrever duas :

Muito glutão e apaixonado pela cozinha, uma de suas distrações caseira predileta era fazer. Doce, sendo o principal - Compota de abóbora - que era preparado com todo o requinte de higiene e cuidados. Casca bem lavada, retirada sem " machucar a carne " , cubinhos todos milimitrados , secos com uma toalha de cozinha própria, açúcar bem peneirado e.......vamos para a panela e para o fogão. Todo ritual obedecido, era só esperar o término do cozimento, que transformava os cubinhos em uma pasta bem cremosa e doçosa, como dizia, mas aí é que estava o problema; quando esse ponto chegava, a panela já estava vazia, pois a cada minuto, lá estava ele de colher e pratinho na mão, pegando umas colheradas para ver o ponto. Iniciava o cozimento com mais ou menos três quilos, e depois ao retirá-lo, havia evaporado uns dois quilos e meio. Nunca ele conseguiu explicar esse fenômeno de evaporação.

Gostava muito de tocar bandolim e cantar "cançonetas da velha terrinha ". Quando chegava do trabalho fazia companhia à esposa, conversando ou tocando e cantando, sentado ao lado de sua máquina de costura, e se ela fosse preparar o jantar, lá ia ele acomodar-se na cozinha bem perto dela.; enquanto aguardavam a chegada da filha mais velha, que estudava, ele preparava a mesa para os quatro jantarem.

Sempre teve um comportamento muito alegre, disposto para `qualquer trabalho, calmo no falar e diante de problemas, mas muito responsável com os compromissos e preocupado com o que deixar de material para a família quando se fosse; como era muito rígido e intransigente com a educação e formação cultural das filhas, não se descuidou do acompanhamento aos estudos que ambas fizeram ate o curso superior, coisa rara na época, principalmente em classe média. Orgulhava-se de sua família.

Infelizmente deixou esta vida cedo, aos 67 anos, tranqüilamente, durante o sono depois do almoço, já estava aposentado há alguns anos, brincou bastante com seus três netos. Viveu e morreu com dignidade. Foi feliz.

Sua filha ao terminar o relato, questionou-me ; -

- A que conclusão você chegou ?

Paródia da Canção do Exílio - Meu Brasil

Texto da Do Carmo
MEU BRASIL

(PARÓDIA DO POEMA CANÇÃO DO EXÍLIO)



MINHA TERRA AINDA TEM PALMEIRA?
E O DESMATAMENTO, PRA ONDE IRÁ?
NÃO CANTA MAIS O SABIÁ,
ASSUSTADO QUE ESTÁ
DA SERRA A ASSOBIAR.

E O CÉU, OLHA SÓ
SEM ESTRELAS E SEM LUAR
POLUIÇÃO ENCOBRE TUDO,
ONDE CANTA O SABIÁ ?

NOSSOS RIOS NÃO TEM MAIS PEIXES
SÓ TEM TUDO QUE NÃO PRETA
EMBOLORA A DOCE ÁGUA,
SUA FALTA VEM DEPRESSA.

MAS MESMO ASSIM, MALTRATADA
É LINDA E HOSPITALEIRA ................
UM GIGANTE VARONIL
ESTE, É O MEU BRASIL.





EXERCÍCIO EM AULA


MINHA RUA TEM UNS CHEIROS
QUE ME FAZEM VIAJAR
A UM PASSADO TÃO QUERIDO
MAS QUE TRISTEZA, NÃO ESTOU LÁ.

Adivinhe quem sou (texto reformulado)

Texto de Do Carmo

SOU FAMOSO e CHARMOSO.
(TEXTO REFEITO)


Sou uma pessoa famosa de TV e Teatro, orgulho-me muito da minha profissão. Amo o trabalho que faço, não só por poder diversifica-lo no desempenho que oferece, mas também pelo ambiente em que fico. Gosto de gente me olhando. enquanto trabalho.
Já viajei por todo o mundo, A Suíça foi meu 1º banco escolar, adoro poder falar em diversos idiomas, bem como esnobar-me tocando vários instrumentos.
Meu tipo físico? Bem, como direi: sou charmoso, alegre, inteligente, já tenho os cabelos grisalhos, não sou atlético, mas sei dar minhas gingada. Já fui casado por duas vezes, tenho um filho com algumas limitações. Gosto da noite, e tenho por norma deitar-me ao amanhecer. Agora com o que vou dizer, certamente irão descobrir que sou. Gosto de comer feijão bem macio e com o caldo grosso, mas deve estar bastante frio ou melhor, bem gelado e regado com bastante azeite de preferência italiano. Ah!, e por falar na Itália, outro lugar que amo, sou apaixonado por um suculento " macarrone " da mama, regado com um estupendo " Chianti ". Não consigo ficar um dia sem ouvir meus blues ou jazz, sou ligadão na música e na cultura britânica. Ah!!!, já emprestei meu nome à diversos programas.
Não sou mais secredo para vocês, não é?

Micro conto Maldito mico- falante





Texto de Gabriela Araujo





Costumeiramente aproveitava domingo para pechinchar o preço dos mais diversos e variados itens de sua coleção de objetos descomunais, todos comprados na feira organizada por uma comunidade de ciganos. Aquele único momento que deixava o minúsculo apartamento era perfeito para eu usufruir de um universo tão diferente posto em peças que exalavam aroma antigo e oriental.


Eram esculturas que personificavam credos ciganos, xales, roupas, talismãs, leques, retratos de animais por mim nunca vistos, chapéus, moedas e livros capaz de proporcionar a imersão em um mundo particular e único onde minha imaginação flutuava livre por direções opostas às decisões racionais e petrificadas. Tinha obsessão pelo canto incabível em meu cotidiano cético, exato e linear.


Faltava magia em minha história e o tempo que passava naquela casa trazia-me gratificante sensação de invasão de uma privacidade incrível e misteriosa que nada se parecia com a minha, metódica e monótona, e me proporcionava horas de um alívio absoluto.


Apropriava-me dos objetos e contava para os fiéis e fascinados ouvintes, a mais atenta era a velha poltrona, histórias interessantes da minha vida como conhecedora dos mais diferentes cantos do mundo.


Mas, deveria saber que aquele mico- falante me causaria problema. Ouvira certa vez que o animal empalhado falava, porém nunca havia escutado sua voz. Também, como poderia um animal morto falar? Às vezes o cobria com um pano, pois, justamente no clímax de meus enredos inventados, seus olhos secos e penetrantes julgavam-me.


Certo domingo, ansiosa, forcei a janela quebrada e me deparei com uma grade de ferro que impediu minha passagem para o encanto. Enfim minha invasão fora descoberta e fechou-se a única abertura para a magia em minha vida. Maldito mico -falante!

Mini conto



Texto de Ana Maria

Apertei o jacaré na bochecha, fiz bilú -bilú e ele me sorriu. Foi assim que comecei a terapia.

Ouvi quando a televisão perguntou algo a meu namorado



Texto de Ana Maria

Ouvi quando a televisão perguntou algo a meu namorado. Num relance a voz sonora e definida do locutor chamou-o pelo nome e lhe fez uma pergunta sobre a programação dos outros canais. Pasmei. Com a revista Ti Ti TI na mão, meu namorado respondeu de chofre e foi enumerando toda a programação para o locutor invisível. De beiço caído permaneci imóvel enquanto o imbecil continuava a longa lista de programação dos mais de vinte canais. Vez ou outra ele ainda me olhava como se a idiota fosse eu, como se fosse normal a televisão falar com alguém...Burro, se pelo menos ela estivesse ligada na tomada...

domingo, 29 de junho de 2008

Micro conto de Simone




Nunca vi uma salada reclamar tanto da vida. Insonsa, mas sempre escolhida, enquanto eu, gostosona e suculenta, mas virgem e preterida!

Reivindicação! Temos o direito?



Texto de Simone

Nunca vi uma salada reclamar tanto da vida. A única resposta que consegui dar ao alface, rebelde como uma noviça sem religiosidade, e aos seus companheiros fiéis de luta foi.
- E quem disse que a vida é justa?

Enquanto me encaravam como presidente de sindicato em busca de seus direitos, reclamavam como se estivessem sendo oferecidos ao sacrifício sem nenhum direito à defesa, ao invés de serem, reconhecidos com toda pompa que acreditam lhe ser dignos.

Essa é boa, quantas vêzes eu também passei por essa situação: de bode expiatório a famoso laranjão. Resolvo pepinos e descasco abacaxis e na hora de colher os frutos, tenho meus direitos e qualidades cassados.

Reclamavam do banho gelado e temperado ao sabor histérico do vinagre. Mas eu também levo muita água fria na cara e tenho que engolir. Ouço muitas abobrinhas e tenho que me manter ereto e flexível feito um pé de espiga.

Reclamavam para serem tratados com leves afagos manuais ao invés de cortes afiados. Essa já é demais... Da próxima vez vou dizer ao meu digníssimo chefe, enquanto ele me tosta, se ele pode usar uma língua menos cortante e ferina ao me espinafrar na frente de seus súditos fiéis.

Reclamavam pelo direito de escolher seus lugares, em cima ou embaixo, ao lado ou no meio do salão oval prateado. Vai que escapassem antes de serem devorados pela gana de seus algozes.

Imagina se um dia poderei escolher onde sentar enquanto meu diretor me oferece, de bandeja e amordaçado com uma maça na boca, aos seus esfomeados e incompetentes superiores e convidados, na procura de eu ser esquecido.

É isso aí....podem parar de reclamar! Hoje passei com louvor pela MBA de como se manter frio e anestesiado como gelo. Depois de dias em banho Maria, finalmente fui servido na Santa Ceia. Presidente, CEO, CFO, Diretores disso e daquilo me fritaram bonitinho: fui picado, esmagado, assado, tostado e devorado a seco, sem direito a uma cobertura de defesa. Estou farto de tanto pepino. Está na hora de variar... quem sabe encontro outro banana e meto a cenoura, mandioca e alface em seu devido lugar!
E se vocês reclamarem mais um pouco, vou comê-los, sem glamour, como porco. Afinal, que pena, se quisesse moleza, fosse um pudim!

Transfiguração




Texto de Loracy Santana

TRANSFIGURAÇÃO

Irritado o guarda-chuva se fechou e calou fundo. Temperamento aberto; escancarado; pára quedas; guarda-chuva aberto e arreganhado agora fechado, ferido e aturdido pela grosseria; ingratidão descabida. Uma palavra calou fundo, apenas uma teve a força maior que as frases ouvidas a vida inteira como brincadeira e debique, agora o limite calou as gargalhadas espontâneas, os abraços efusivos, o calor do afeto verdadeiro, sem falsidade. Chega!

Desde menino, mal balbuciava as primeiras palavras se misturavam com sorrisos, o olhar por si falava, quando abraçava alguém era carinhoso de afeto caloroso. Foi assim a vida inteira até fazer-se adulto de temperamento leve e brincalhão, por mais que dele falassem por galhofa, palhaço nas festas dos amigos, piadista e mágico nas horas vagas, a todos alegrava, onde estava ninguém podia ficar triste, a alegria nascera com ele e assim se sentia bem, apelidos vários, não se importava.

O momento, para ele sagrado, filha única lhe merecia respeito, deveria ser poupada, alma que transcendia ao etéreo e eterno inatingível aos simples mortais. Momento supremo de pureza absoluta, nenhuma palavra impoluta deveria voar e macular aquele instante. Bastou uma, dita como brincadeira de escárnio, interpretada como grosseira, proferida e indevida, inconveniência descontida. Transfigurado o caráter do homem solto e desenvolto em seu jeito de ser.

A partir daquele dia malfadado, ele magoado não mais sorriu, o semblante escancarado fechou-se para sempre. A sisudez toldou o seu íntimo, antes alegre e galhofeiro, o repertório de piadas trancadas para sempre em um cofre escuro, chaves atiradas no fundo do abismo, irrecuperáveis. Fechou-se, calou fundo a maldita palavra dita em tão má hora . O espinho rombudo que feriu seu coração de pai extremado, fincado no peito como eterna chaga, não demonstra mágoa nem arrependimento, o silêncio é a voz altiva que fala por todas e em todas as horas.

Sem alarde nem reclamação, via aos poucos os amigos se afastarem e sozinho encarava a mudança necessária, para continuar a viver sem nunca cometer nenhum desatino, não pretendia correr o risco de voltar a ser o que sempre fora, e em tempos ainda por vir se arrepender de ter saído do marasmo e porventura se perder em um mundo obscuro, onde sentisse que não lhe caberia, dali por diante. Distante, com a alma corroída, a alegria perdida não haveria nem teria motivação para ressuscitar o ser que dentro dele para sempre jazia morto e sepultado.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Dyonelio Machado

Um cidadão, que havia ido a um sebo comprar um livro antigo, certa vez me perguntou: "Mas por que os seus livros estão sendo procurados?". Eu respondi: "Foi porque eu morri". Então ele me dissë: "Ah, deixe disso!". Eu retomei. "Foi morte sim, porque somente depois de morto o escritor foi reconhecido."Há várias mortes, e me pegaram para uma delas".

Depoimento de Dyonelio Machado a Fernando Paixão e Nelson dos reis, em 1981.

A cigarra e a Formiga (texto revisado)





Texto de Loraci Santana
A CIGARRA E A FORMIGA – (Uma paródia em tempos modernos)

A cigarra com garra e afinco, dedicava ao seu solitário canto. Ensaiava e sonhava com um futuro brilhante. Verão, a época lhe inspirava melodias, na poesia e em toda arte. O sol no campo brilhava, enquanto ela cantava e enchia de harmonia todo o matagal, os insetos felizes aplaudiam a generosa música, cheia de graça e de graça cantada. A cada dia que passava, ela mais bonita se tornava, com a longa saia transparente, os olhos grandes e buliçosos contemplavam toda a beleza da paisagem. Estudava o canto lírico e se inspirava no popular para todos agradar.

Rasteira e matreira a formiga trabalhava, acumulava fartura para época do inverno, já previa a cigarra pedindo-lhe ajuda, não ajudaria, teria o prazer em humilhá-la e ensinar-lhe que a boa vida que levava, poderia ser breve, se acabava. Orientada por uma grande tanajura, estudiosa dos grandes clássicos da economia mundial do século XIX, a chefe comandava um grande exército de trabalhadores, estabelecia turnos de doze horas, a ordem era trabalhar, produzir e acumular.

A cigarra com o passar dos dias arrumou companhia, já não era solitária. Formou-se uma banda regida pela sua batuta, astuta a artista não dava na vista o seu talento para a arte, passou a ser contratada para apresentações em outras freguesias, sempre ao entardecer, pois a noite foi feita para o descanso. Não ganhava nenhuma fortuna, também nunca teve esse tipo de ambição, a sobrevivência e o aperfeiçoamento era suficiente para a realização dela e do grupo que a acompanhava, alegrava festas e casamentos, a fama corria solta, porém dinheiro nunca via, cantava pela alegria dos outros alegrar. A formiga no comando não aceitava desmando e esmerava na produção e as leis do capitalismo eram seguidas à risca, a grande mentora leitora de Maquiavel, sabia como comandar.

Vésperas do inverno, seria o inferno para os insetos cantores e trabalhadores; em suas apresentações a cigarra e o seu bando sempre alguma coisa ganhavam, precisavam sobreviver, que fosse ninharia, ela agradecia e mais alto e forte cantavam. A formiga irritada comandava o operariado, até que alguém entre elas alardeou: a vida não era feita só de trabalho, precisavam de lazer e diversão, fizeram uma reunião, a força do coletivo venceu, um sindicato foi criado para defender os interesses da classe trabalhadora; os turnos foram diminuídos e logo estabelecidos momentos para o lazer.

A cigarra e sua banda voltavam de uma excursão a um país vizinho, estava chegando o fim do verão. Deram um grande concerto, a cigarra chefe surpresa percebeu a enorme multidão que aglomerava em sua festa de boas vindas, o formigueiro inteiro dançava, as formigas exibiam suas formas arredondadas bem à brasileira e gingavam como se fossem exímias bailarinas, procurou a tanajura mentora do grupo, as duas se abraçaram, a formiga elogiava as vestes e o talento da cigarra chefe e essa retribuía os elogios olhando-a em trajes mínimos e insinuando sobre o seu avantajado traseiro, chamando-lhe a atenção para o número de formigões que deitavam-lhe olhares maliciosos e cheios de desejos eróticos. Riram abraçadas, mais tarde embriagadas comemoravam a nova fase das suas vidas.
Loracy

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Lia a Formiga e Ana a Cigarra





Texto de Simone



Lia Formiga e Ana Cigarra

Era uma vez uma menina baladeira, Ana Cigarra, que vivia em academias de ginástica e em festas, sem se preocupar com o futuro.

Um dia, no corredor do prédio, tropeçou com a menina estudiosa, Lia Formiga, e lhe disse:

- Porque você não esquece um pouco os estudos, larga esses óculos e vem aproveitar a vida.
- Porque a vida não é fácil e eu quero preparar meu pé de meia.

Anos se passaram e Lia Formiga entrou para faculdade, além de cursar aulas de inglês e espanhol. É claro que continuava a usar seus óculos de grau e acumulava um pouco de gordura localizada. Já Ana Cigarra se tornava mestre e doutora em novas modalidades de ginásticas, spas, clínicas de beleza e é claro, freqüentava festas e mais festas. Conhecia pessoas bacanas e endinheiradas.

Por mais uma obra do destino, as duas cruzaram-se novamente e, Ana Cigarra disse:

- Lia, porque você não vem se divertir um pouco. Deixe os livros de lado. A vida é curta e não aceita desaforos. Olha o anel que ganhei do Bruninho. Ele não resistiu a dança da cadela....e assim, vou construindo meu futuro.

- Prefiro não depender de ninguém e fazer o meu pé de meia. Afinal, dinheiro também não aceita desaforos.

Após algum tempo, a baladeira gostosona se casou com o filho do presidente de uma grande multinacional e curtia a vida como se não houvesse o amanhã. Festas, jóias, viagens, restaurantes caros, plásticas e lipos.

Já Lia Formiga se tornou uma grande cardiologista e casou-se com um jovem promissor, Zeca Pinto, futuro promotor de justiça.

Os anos se passaram e a meia idade não tardou a chegar.

Não é que Lia Formiga, bem sucedida no casamento e profissionalmente, e até que ajeitadinha, encontrou no salão de beleza de bairro com Ana Cigarra, gostosa e enxuta para tal idade e, surpresa perguntou:

- Ué, o que faz aqui neste salão? Pensei que só freqüentasse os do Jardins?
- Pois é, tô passando por algo inimaginável, um divórcio litigioso. Fui trocada por uma baladeira gostosa, tudo em cima, de 20 aninhos. Sai com um pé na frente e outro atrás. Tô sem grana, sem casa e sem amigos.

Lia Formiga que batalhou sua vida inteira ficou com tanta dor no coração, convenceu seu marido Zeca Pinto e convidou Ana Cigarra para ficar em sua casa enquanto os tempos de cólera passavam.

A baladeira então aceitou a ajuda com uma única condição. Queria retribuir o apoio com o único ensinamento adquirido em toda sua vida: aulas de ginástica, massagens e técnicas de relaxamento. Após algumas semanas, Ana Cigarra já reinava total como uma grande leoa na ex casa de Lia Formiga. Afinal, com tanto charme e dança da cadela o promotor de justiça, Zeca Pinto, deferiu a seu favor.


Moral da história: A beleza interior não impera no mundo soberano. Realmente, o mundo é dos espertos! Mantenha seu glúteo em pé que sempre haverá um pinto para te sustentar, afinal cabeça de homem pensa diferente de cabeça de mulher.

domingo, 22 de junho de 2008

A fantástica fábula desencantada



Texto de Ana Maria

Era uma vez dois irmãos Jacob e Wilhelm que viviam na Alemanha nos anos de 1730. Interessados por escrever contos de fadas, contos de encantamento e contos maravilhosos criaram mulheres encantadas perseguidas por madrastas malévolas com irmãs adotivas mimadas e incapazes. Em outro momento concebiam lindas princesas que de tão boas beijavam feras que se transformavam em lindos príncipes. Terminaram quase todas as fábulas com personagens viviam felizes para sempre. Até que um dia...

Surgiu a tal Chapeuzinho vermelho. Moça ou menina ninguém sabe ao certo. Nem tampouco se sabia da existência de mãe ou pai dessa personagem, será que era órfã a infeliz?. Para falar a verdade nem ao menos se conhece o verdadeiro autor dessa fábula torcemos por seja os Irmãos Grimm. Nesse conto não havia nenhuma fada
e nem havia nenhuma bruxa

Bem...Imagina-se que a mãe da mocinha era designer de moda e com esse conto lançou o capote com capuz que veio a ter estrondoso sucesso no mundo da moda até os dias de hoje com algumas variantes na cor.



Uns autores de causos e lendas criaram também um moleque negrinho brincalhão que usava capuz vermelho. Mas esse não era bom nem ruim, apenas arteiro.


Não percamos a nossa personagem de vista, essa pobre moça sem nome que não era princesa, nem bela, nem nada, apenas era boazinha e usava um capuz vermelho. Enfim uma personagem inútil, e o que escrever sobre ela? Teriam que inventar alguém que fizesse alguma coisa na história, pois nem a vovozinha da moça (única parente que se conhece mesmo após intensa investigação) faz algo na fábula, apenas passa o tempo todo na cama, puro ócio. Na verdade essa avó tinha sido uma vedete do teatro de revista carioca que não conseguiu nenhum papel importante e estava à porta da aposentadoria pelo INSS.



Sabia-se de fonte não fidedígna que a vó da moça era proprietária de uma elegante mansão na floresta, prêmio do jogo do bicho, onde há tempos recebia garotos de programa na calada da noite e depois da orgia nadavam pelados no lago existente atrás da casa. E para impedir a neta xereta de chegar lá de sopetão e pegar a velha no flagrante, dizia a vó para a pobre e idiota menina que a floresta era escura perigosa e cheia de feras. Mas imbuída de sua boa fé a mocinha atravessava a indolente floresta para levar os doces do Amor aos Pedaços para a vovozinha, e fazia isso todos os dias. Meu Deus, essa mulher deveria estar gorda como um cachaço! Ou prestes a morrer com altas taxas de açúcar no sangue...(Soubemos que há tempos não recebe mais os garotinhos de programa mas finge doença para receber os médicos do SUS)
Pelas investigações chegamos à conclusão de que a moça queria mesmo herdar a casa da velhinha.



Era tão determinada nessa maldade que enfrentou inúmeras vezes os animais da floresta sem nunca faltar a única visita. Uma vez deparou-se com um Lobo que todos chamam até hoje de Lobo Mau.Esse bicho seria o personagem que teria forte atuação no texto mas o roteiro mudou naquele instante. Ele era muito feio, feio pra caramba, mas tinha uma linda voz quando urrava elegante para ela, tinha corpo esbelto e peludo, a boca carnuda, os olhos flamejantes e as unhas de fazer inveja a qualquer mortal. A moça pensou: É hoje ou nunca mais. Se não me agarrar agora a esse coitado que pensa que é mau vou morrer solteirona e ingerida por um bicho papão. Comeram os docinhos da cesta, falaram da droga da vida, e amanheceram juntos na moita. Passou a chamá-lo de Lobão e assim tornou-se conhecido.

Agora faz sentido, a moça que não era encantada e nem encantadora só podia mesmo apaixonar-se por um animal sem pedigri que não se torna príncipe hora nenhuma nem depois do beijo.

E como era de se esperar, numa história dessas as personagens não podem acabar vivendo felizes para sempre... Não é mesmo?

Tenho pena dos Irmãos Grimm que tiveram que arranjar esse Lobo para a moça na ânsia de ajeitar a personagem. Talvez por essa história não merecer nenhum crédito é que eles não assinaram o texto quando o escreveram. Eu também não assinaria.