terça-feira, 12 de agosto de 2008

Texto: O segredo do mecânico - Ana Maria Maruggi



O segredo do mecânico

No Natal o mecânico esperava por um milagre. Enfático em suas orações pedia proteção aos Reis Magos . Espera uma luz solucionadora de problemas.

Ia se casar em breve e ainda guardava íntimos segredos. Coisas bobas como: o mau cheiro que exalava do pé esquerdo todas as noites. As ásperas mãos tratadas sempre antes dos encontros. As cáries escondidas não corrigidas por falta de dinheiro. Tudo o atormentava. Mas a perna mecânica o deixava inseguro. O lado direito tinha ficado preso sob um veículo enquanto o consertava e precisou amputá-la. Não contou nada a Madalena até aquele dia.

Casamento marcado para Janeiro com preparativos avançados. E o mecânico desesperado com tantos segredos. Temia pela noite de núpcias quando tudo se revelaria de maneira grosseira. Os amigos aconselhavam a contar tudo para a moça antes de gastar os tubos de dinheiro sob pena de nada se concretizar. Mas ele titubeava, não queria perder a amada por isso nada revelava. Quem sabe para ela nada signifiquem esses segredos e o amor dela por você seja tão grande que ela nem se incomode com esses segredos, diziam os amigos. Mas ele refletia, refletia, e nada fazia. Quem sabe ela tem outros defeitos e até piores e ela também tema revelar para você, insistiam os amigos. Mas o jovem mantinha-se calado.



Chegou o Natal quando ele acreditava no verdadeiro milagre. Em orações enfáticas pediu que os males fossem curados para ele puder ser feliz com Madalena.



E pliiiim! Uma luz colorida se espalhou pela sala escura e ele sentindo-se estranho sentou-se na poltrona diante da árvore de Natal de onde viu tudo acontecer. A porta foi se abrindo lentamente e uma imagem difusa de um Papai Noel surgiu entrando com uma lanterna acesa na mão. O mecânico não conseguia ver o rosto, mas acreditava no milagre de Natal e rezou em voz alta. Noel ajoelhou-se diante dele e aos poucos foi removendo a velha perna mecânica amiga de mais de doze anos. O rapaz rezava enfático e agradecia pelo milagre da Noite de Natal. Papai Noel então se levantou devagar segurando a prótese nas mãos e saiu pela porta deixando a lanterna no chão ao lado do nosso jovem. As preces podiam ser ouvidas ao longe.

Ali amanheceu nosso mecânico sem seu milagre e sem sua perna.

E longe já estava o ladrão de prótese.



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