quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Mário, o mar e as relações humanas




Texto de Gabriela Araujo- baseado no conto simples "Mário e Omar"
É isso que dá deixar um amigo para trás.
A humanidade caminha em direção ao progresso tecnológico, enquanto relações humanas retrocedem.
Respeito, amor, fraternidade são palavras distantes do cotidiano. São conceitos pregados nas missas dominicais ou estampados em embalagens de alimentos. Afinal, agora só se fala em consciência ambiental.
Pergunto a você: o que é consciência ambiental?
A resposta provavelmente virá rápida e decorada. Agora responda: o que está em sua consciência capaz de mudar a relação entre você, a comunidade em que vive e o mundo?
Creio, o homem é um ser egoísta por natureza e sua relações com o semelhante e o meio em ambiente iniciam-se apresentando o final próximo.
Como seria o começo se não existisse o final?
Utilizo esse exemplo para embasar minha tese.
Mário adorava seu único amigo, o mar. Os dois mantinham um íntima e estreita relação apesar da forte oposição da cidade.
Partindo do princípio natural da harmonia entre os seres vivos, o bom menino encontrava amparo na imensidão do sábio e traiçoeiro amigo. Sábio, porém traiçoeiro. Nessa caracterização do mar é entregue a primeira dica do final da então perfeita harmonia e cumplicidade entre os personagens principais.
Apesar das diferenças a amizade persistiu por muitos anos até Mário, já homem, se encantar por uma mulher. Não existiu na história, como não existe no dia-a-dia, a possibilidade de compartilhar atenção, principalmente quando o elemento mulher está em jogo. Assim, Mário se viu obrigado a deixar seu amigo, muito amigo, para trás.
O final. O velho traiçoeiro engoliu com ondas gigantescas toda a cidade e vive a espera do amigo. Ele, certamente, nunca vai voltar.
Mas uma vez é provada a essência egoísta humana. Deixamos os belos conceitos da relação humana para caixas de suco de soja e comercial de margarina, sem sal, é claro!

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Entre amigas - Do Carmo




A Do Carmo trabalhou esse texto aparando-lhe as arestas. Veja o antes e depois:


Entre amigas


Amiga, estou muito preocupada com a Verinha. Como essa maluquinha irá contar para a mãe que está grávida?

Certa vez comentei:” quando estiver namorando pra valer pedirei à mamãe para ir ao ginecologista, assim evitarei dissabores “. Dona Alice quase teve um ataque, disse que sou “ muito avançada para a minha idade “; ela sufoca a filha, nunca têm diálogos, .não é sua amiga, tão pouco lhe dá conselhos reais e agora pobrezinha, cadê o bonitão? Ela sequer sabe o nome correto do cafajeste. O pior será a reação de dona Alice, ou irá surrar a filha ou mandá-la para o interior ou pior, interná-la no colégio onde viveu depois de órfã.

Mamãe quer conversar com dona Alice, embora seja julgada de “muito liberal“.

Verinha teme seu gênio impetuoso; retrógrada e fechada como é não parece ter estudado tanto. É pessoa esclarecida e trabalha desde antes da filha nascer, continua trabalhando, precisa custear o excelente estudo da Vera (por que será que nunca falam do pai?). A vida nada lhe ensinou com tantos reveses? Ela vegeta na época medieval, seu comportamento é medíocre com tanta repressão e austeridade. Adiantou? Veja o que resultou: gravidez e abandono do rapaz. O que me diz?
Verinha está sofrendo, sente-se angustiada, precisa conversar francamente com a mãe, sentir seu apoio e carinho. Terá? O que mais a aflige é o sofrimento e decepção que causará à mãe.

É muito bom termos as melhores mães do mundo, não é?

Bem garota, chega de falar. Como sempre falei demais, já uma hora, minha bela orelhinha está ardendo. Liga-me mais tarde? Vamos rezar em sintonia pela nossa amiguinha, aquela querida maluquinha.

Beijinhos, beijinhos e inté...



**

O texto era originalmente assim:


Amiga, estou muito preocupada com a Verinha. Como a maluquinha irá contar para a mãe que está grávida?
Certa vez comentei na casa dela, que quando estiver namorando pra valer mesmo, vou pedir que minha mãe me leve ao ginecologista, para que eu possa tomar um anticoncepcional e com segurança evitar dissabores. Dona Alice quase teve um ataque, ela acha que não sou boa companhia para a filha, diz que sou “ muito avançada para a minha idade ”; ela sufoca a pobre filha, nunca têm diálogos, são inibidas para conversar sobre sexo, ou como prevenir-se para evitar uma gravidez fora de hora
.Não é amiga da filha, mantém distância alegando respeito. Esse comportamento deixou Verinha vulnerável e nas primeiras palavras doces entregou-se de corpo e alma.
Cadê o bonitão? Ela não sabe, sequer o nome correto do cafajeste.
O que mais me assusta é a reação de dona Alice, que é bem capaz de surrar a filha e manda-la para o interior morar com algum parente que não conhece ou pior, interna-la no colégio onde ela viveu depois que a mãe morreu.
Sabe amiga, a minha mãe quer conversar com dona Alice, mas Verinha teme o gênio impetuoso da mãe; ela é demais austera, tudo é feio, imoral e pecaminoso. Ela é tão retrógrada e fechada que não parece ter cursado uma faculdade renomada. Ela é pessoa esclarecida e trabalhou quando solteira em empresas de grande porte, casou-se teve essa filha, ainda trabalha, ( por que será que nunca falam do pai? ) para poder oferecer excelente estudo para ela, enfrenta batalhas diariamente, será que a vida nada lhe ensinou com tantos reveses? Nada aprendeu com o tumulto do cotidiano? Não tirou proveito algum das lições que, gratuitamente, a vida oferece. Ela vegeta na época medieval, seu comportamento é medíocre, tanta repressão e austeridade, veja no que resultou: gravidez e abandono do rapaz.

Qual a sua opinião quanto a minha mãe ir conversar com dona Alice, mesmo sabendo que ela acha minha mãe. “ muito liberal para o seu gosto ".
Com muita delicadeza inicia a conversa falando sobre a juventude e com sutileza ela comenta, como se tudo estivesse esclarecido entre mãe e filha, sobre o enxovalzinho do bebê. Será bom? Vale a pena tentar? Ou irá piorar.
Verinha está sofrendo, sente-se angustiada, sufocada, precisa desabafar-se, .confidenciar-se com a mãe, sentir apoio e carinho, Ela sofre mais com a distância que a mãe impõem, do que com o abandono e as complicações e preconceitos que irá enfrentar como mãe solteira. Sabe que o futuro será de lutas homéricas para manter a criança junto dela; o erro não é do bebê e ele não merece castigo, ela assume a culpa do deslize, ambos necessitam de muito amor e carinho, coisa que somente mãe sabe dar.
O que mais a aflige é o sofrimento e decepção que causará à mãe.
Ela não está sofrendo por ter de abdicar tudo ou quase tudo que a juventude proporciona, sabe que agora o filho é prioridade. Todo o tempo que seria para seu lazer, será dividido com a criança. Mas será que hoje ela tem lazer? Não, não tem.
A mãe sempre encontra alguma coisa para fazer junto com ela, exatamente no dia em que acontece uma festa, por exemplo.
Que bom que nossas mães não são DONAS ALICES. Felizmente temos as melhores mães do mundo. São nossas amigas, ouvem e conversam conosco, estão sempre participando de nossos problemas, por mais fútil que sejam, importam-se com tudo o que nos diz respeito,
Ai amiga, que pena tenho das duas!
Bem garota, chega de falar. Como sempre falei demais, estamos há uma hora ao telefone, minha bela orelhinha está ardendo. Liga mais tarde? Vamos rezar em sintonia pela nossa amiguinha maluquinha.
Beijinhos, beijinhos e até. .........

domingo, 24 de agosto de 2008

Segundas intenções - Ana Maria




Alô? Oi querida que bom encontrá-la em casa, precisava contar uma coisa engasgada aqui ó. Sabe o padre que a gente conheceu naquela festa fuleira lá em São Paulo?

Mas como não lembra? Não foi você mesma que me convidou dizendo não ter nenhuma alma caridosa para te acompanhar na festa beneficente daquele padre maluco? Foi sim senhora!

Lembrou, né ? Sabia que não esqueceria, afinal foi lá onde aconteceu aquele encontro desagradável com aquela fulaninha toda “si si”. Como era mesmo o nome dela? Um mau gosto naquele vestido de bolinhas coloridas, credo! Engraçado que essas “rodadas de baiana” são inesquecíveis, mas estou ficando velha, né ?...

Isso não é importante agora, sabe o padreco “cido” ( todo aparecido ele!) ? Então menina, ele tentou voar nuns balões de gás por ai, acabou escafedendo-se no mar.Ficou sabendo? O cara edoidou da carochinha, coitado! Ficou uns dias desaparecido até que ontem encontraram o sujeito mortinho da silva numa praia perto da minha casa em Floripa. Menina, estava irreconhecível, um horror! Estou pensando com meus botões, será que a renda daquela festa foi toda diluída nesse projeto sem nexo de viajar em balões, ou ainda sobrou alguma grana pra gente fazer um “auê” lá em Sampa?

terça-feira, 19 de agosto de 2008

O QUE É QUE A BAIANA TEM? - Do Carmo




O QUE É QUE A BAIANA TEM?


Interessante essa pergunta. Sempre eu quis saber o que é que ela tem, porém nunca ouvi falar de sua essência de sua sensibilidade. A imagem que é passada mostra uma mulher charmosa, sensual, naturalmente bonita, com roupas muito branca, cheia de babados rendados e engomados, vários colares e pulseiras de contas coloridas, turbante ornamentado com flores e frutas, calçada com douradas sapatilhas que rodopiam piruetas com saias rodadas e armadas.

Descreve-se uma baiana como sendo figura folclórica, um mito. Mas o que ela é?

Cogitou-se em descobrir como bate seu coração? Como deve ficar apreensiva quando seu amor sai para a insegurança do mar ganhar o sustento da família? Será fácil passar um dia causticante sentindo-se impregnada do perfume, suado e oleoso, exalado dos acarajés? Como estarão seus pés e pernas ao levantar-se do banquinho tosco em que ficou sentada por horas, aquecendo-se com o calor da frigideira? Nada foi dito. Sua imagem é de glamour.

Teria essa mulher tão decantada, tido tempo para apreciar um por de sol a beira mar, passeando?

E nas estupendas noites de luar, teve oportunidade de ver as estrelas deitada nas areias quentes da praia, namorando seu amado?

E seus olhos de lua cheia como ficam? Apenas choram.

Ela é um pesadelo!

(texto seco) Reza braba (revisado) - Ana Maria



Soco forte no queixo. Tonteou prum lado, e lá vinha outro murro de punho fechado. Tonteou de novo. Caiu o pobre. O rosto inchou na hora. A boca floreou. O sangue verteu. As pernas trogloditaram pela estrada seca em desesperada fuga. O homem tinha medo da surra, mas não podia evitá-la. Apenas pedia “PelamordeDeus pára cum isso”. Já vai pra lá mês que apanha quando passa pela trilha, coitelinho. Apanha por apanhar...

O amor que morava no coração dele, rareou. Chegou a raiva. Muita raiva dos Nereu.

No espelho de casa viu os olhos avolumando. Pensou nos Nereu. A cara arredondava pra caber os olhos crescidos. Incharam, cresceram de dar medo. Duas bolas acesas na cara redonda do infeliz. Pensou na raiva. Chamou a mulher aos berros. Assustada, benzeu-se e entoou uma reza em voz alta. Era o coisa ruim! - disse ela. Ele rezou também. De nada adiantou. Suas orelhas se movimentavam sem querer, à olhos vistos. Incharam e cresceram, cresceram de dar medo. As duas orelhas ficaram enormes, maiores que a cara. A mulher grita. Ele espuma de raiva. Ela reza fazendo o sinal da cruz. De nada adianta...

Mário e Omar - Gabriela Araujo




Mário não poupava o mar de nada. Contava os segredos, fazia confissões, questionava o amor e, quando reclamava do silêncio, seu fiel ouvinte respondia banhando salgado o único amigo.

Toda a cidade mal dizia a amizade entre o bom menino e o velho traiçoeiro, além de roubar a vida de inocentes, agora comia todos os peixes deixando os moradores famintos e furiosos.

Mas, Mário sabia, o amigo, embora teimoso, era inocente. Como? Ele próprio respondeu ao pequeno. Disse das travessuras da lua e do vento responsáveis pelos dias de tormento e do sol, apaixonado se mostrava mais forte e brilhante para conquistar a amada.

O garoto explicava. Bastava prestar atenção e a voz do mar poderiam escutar. Qualquer dúvida, qualquer pergunta ou problema ele conseguia solucionar. Ninguém acreditava. A sentença para o pobre, isolamento. Nada de pesca, nada de barcos e brincadeiras. Era sozinho e sozinho iria ficar.

Mário não se importava e, todas as manhãs, o amigo visitava. Chegava chamando Omar, Omar, e ele respondia balbuciando alegre espumas para lá e para cá.

Passaram-se anos até que Mário se encantou pelo ser mais puro já encontrado. A menina dos cabelos melados era doce demais para tanto gosto salgado. Mário não teve alternativa, deixou a cidade e sofrendo despediu-se do amigo.

O mar, enfim sozinho, gelou-se todo da frieza do menino. Furioso, engoliu a cidade que zombava do destino infeliz, prometeu nunca mais calmaria, disse que do doce o amigo um dia esqueceria e Omar, Omar chamaria.

Ele ainda aguarda inquieto, abandonado e salgado o retorno de Mário.

Contas pagas. - Ana Maria Maruggi



Noite fria na dura calçada da capital paulista. Uma névoa pintava os ares e turvava os olhos da profissa exageradamente maquiada que baforava um Free com filtro. A roupa inadequada para o clima era apropriada para atrair olhares masculinos. Mas o dia estava fraco. Passava da meia noite e nenhum cliente apareceu.

Geni era diferente das outras moças, tinha os cabelos naturalmente ruivos e os lábios atraentes, vestia-se com estilo próprio e era a mais procurada. Mas estava cansada. O salto alto já a incomodava quando enroscava nos buracos do cimento. As esbeltas pernas geladas cobertas por meias pretas movimentavam-se com elegância de um lado para outro no passeio público. Os seios quase à mostra exuberavam como grandes frutas maduras. Vez ou outras ensaiava poses ousadas com o poste de iluminação. Mas não havia ninguém na rua além das moçoilas.

Tinha que pagar o aluguel no dia seguinte ou corria risco de ser despejada. Há muito pensava em se mudar para um apartamento só dela, mas os ganhos ainda não eram bastante. Esperava pelo cavalheiro estrangeiro que prometeu vida séria num país que ela nem sabia dizer o nome. O nome dele também era tão complicado de dizer que ela nem ousava. Começa com V, dizia ela.

Um farol então quebra a esquina e quase cega os olhos verdes da moça. O automóvel avança devagar próximo da calçada e como numa vitrine o motorista passa os olhos pelas dezenas de raparigas que precisam ganhar a vida. A luz do freio se acende ao lado de Geni. Ela se curva sexy e encara seu cliente com um enorme sorriso de contas pagas. A porta se abre para ela que altiva se senta ao lado do motorista. Quase não entendia o que ele perguntava, mas respondia “Yes”. Foram para um luxuoso hotel localizado no bairro dos Jardins onde parecia uma rainha sobre o tapete vermelho do hall. Foi quando notou que o cliente era seu estrangeiro.

Geni nunca mais foi vista na calçada de lama. Mas escreveu para as amigas da calçada da fama...

Vou casar! - Maria do Carmo



VOU CASAR... CONTO A VERDADE?


Quanta angústia, o que fazer. Dizer toda a verdade ou continuar em silêncio e deixar acontecer o inevitável. Não estarei sendo covarde? Penso que sou ainda mais, pois uma pessoa sóbria e de caráter não ocultaria nada, por pior que fosse a revelação.

Verdade, sempre a verdade.

Mas que dilema, fico sentindo vertigens ao imaginar-me contando o meu defeito para o grande amor de minha vida. Crueldade, esperar até dias antes do casamento, muita falta de respeito. Ái! Preciso de iluminação...

Um MILAGRE!

Com efeito, um milagre poderá salvar-me e como estamos no final do ano, tenho certeza: a prece será ouvida; lembro-me de uma oração que realiza desejos na noite de Natal, vou fazê-la mesmo sabendo que o milagre de Natal é negado por jovens.

O mais intrigante neste comportamento é que coisas mais graves e feias eu não ocultei, esclareci no dia do nosso conhecimento. Agora, qual a razão de eu julgar tão traumatizante essa frustração secreta, depois de ter contado, por exemplo, que tenho uma perna mecânica?

Quanta dúvida! Estou em pânico! Preciso dar solução ao drama.

Devo fugir manquitolando com a perna mecânica ou corajosamente enfrento a situação:

escancaro a boca e sem pudor algum mostro meu dente canino implantado.

Ufa! Ponto final.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Tô cansada - Roxane



Quem sabe ele tenha suas razões
de ser bravo,
de ter mau-humor,
de pegar no meu pé,
de ser chato!

Quem sabe de sua história
com seu pai milíco,
mãe frustada,
família desunida,
que lhe deu pruridos!

Quem sabe?
Porque eu não sei,
e nem quero saber.
Tô cansada!

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Hernandes, o baú e o livro - Gabriela Araújo



Texto de Gabriela Araujo
O jovem milagre negava a noite de natal
O velho livro de história não conseguia mais entender o mundo. Foi no ano de muitos anos atrás que o culto e sábio contador das mais fantásticas histórias, desbravador dos sete mares e único dono da verdade fora deixado servindo de apoio para sanar o rebolado instável do baú responsável pelas freqüentes brigas matrimoniais e por ocultar irrelevantes objetos dos Lima .

Aquele móvel era misteriosamente secular, única herança, cuja dona Carmela fazia questão de exaustivamente insultar, recebida por parte da família de Hernandes. De fato, o baú não era funcional e quando posto como peça decorativa capaz de estabelecer desarmonia entre cores e desordem no minucioso espaço organizado por Dona Carmela.

Como era pesado o coitado! Seu destino não poderia ser diferente. Encontrou repouso junto a estante de livros no escritório de Hernandes, único cômodo protegido e intocado pelas garras da Dona.

Até a chegada do baú, o livro havia encantado noites, aquecido corações das donzelas, encantado crianças, ludibriado a vontade dos jovens para guerras e a ganância de Hernandes pela vida. Quando colocado como apoio ao imprestável, torto de tantos insultos, remoeu seu trágico medíocre fim. E remoer era o única coisa que pode fazer nos muitos anos depois até ser resgatado pelo inventário.

Ocioso, o fantástico observou como tudo estava tão diferente, a começar pelo sopro do vento nas páginas amareladas. Soube, logo na releitura dos parágrafos iniciais, a estapafúrdia novidade, incabível para o detentor de páginas de celebrações e distintas crenças, o jovem milagre negava a noite de natal.


Delírio - Aglaé Torres



Frase nº 2: “A novidade é que na noite de núpcias ele fugiu furtando a perna mecânica...”


DELÍRIO

Na noite que antecedeu o enlace matrimonial, o Sonho!

Ele se viu fazendo amor com a noiva-perna mecânica. Ela infiltrava-se por entre as pernas, descia pelo pescoço. O pé-mão alisando-lhe por inteiro.

Acordou trêmulo. Suor frio. Qual o significado do pesadelo? Consultava a memória tentando descobrir.

A Perna rebelou-se sendo deixada de lado, observando-os amarem-se sôfregos. Ele nem se importava com a retirada dela, mero objeto descartável. Mal sabia! O ciúme fervendo a fogo lento tramou a vingança: tornar-se desejável. Captar atenção.
Dominar.

Noite de núpcias. A noiva em retirada embelezava-se. A perna mecânica, na porta, encostada. Emitindo cintilações. Ele rememorou a noite anterior. O susto, motivo da fuga e do “seqüestro obrigatório” da amante de metal.

Ele despenca na noite conivente carregando a dominadora.

A noiva impossibilitada de segui-los. Seus gritos soluçantes acordaram o Motel Cinco Estrelas:

- Que jeito estranho de fazer amor!

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Texto: O segredo do mecânico - Ana Maria Maruggi



O segredo do mecânico

No Natal o mecânico esperava por um milagre. Enfático em suas orações pedia proteção aos Reis Magos . Espera uma luz solucionadora de problemas.

Ia se casar em breve e ainda guardava íntimos segredos. Coisas bobas como: o mau cheiro que exalava do pé esquerdo todas as noites. As ásperas mãos tratadas sempre antes dos encontros. As cáries escondidas não corrigidas por falta de dinheiro. Tudo o atormentava. Mas a perna mecânica o deixava inseguro. O lado direito tinha ficado preso sob um veículo enquanto o consertava e precisou amputá-la. Não contou nada a Madalena até aquele dia.

Casamento marcado para Janeiro com preparativos avançados. E o mecânico desesperado com tantos segredos. Temia pela noite de núpcias quando tudo se revelaria de maneira grosseira. Os amigos aconselhavam a contar tudo para a moça antes de gastar os tubos de dinheiro sob pena de nada se concretizar. Mas ele titubeava, não queria perder a amada por isso nada revelava. Quem sabe para ela nada signifiquem esses segredos e o amor dela por você seja tão grande que ela nem se incomode com esses segredos, diziam os amigos. Mas ele refletia, refletia, e nada fazia. Quem sabe ela tem outros defeitos e até piores e ela também tema revelar para você, insistiam os amigos. Mas o jovem mantinha-se calado.



Chegou o Natal quando ele acreditava no verdadeiro milagre. Em orações enfáticas pediu que os males fossem curados para ele puder ser feliz com Madalena.



E pliiiim! Uma luz colorida se espalhou pela sala escura e ele sentindo-se estranho sentou-se na poltrona diante da árvore de Natal de onde viu tudo acontecer. A porta foi se abrindo lentamente e uma imagem difusa de um Papai Noel surgiu entrando com uma lanterna acesa na mão. O mecânico não conseguia ver o rosto, mas acreditava no milagre de Natal e rezou em voz alta. Noel ajoelhou-se diante dele e aos poucos foi removendo a velha perna mecânica amiga de mais de doze anos. O rapaz rezava enfático e agradecia pelo milagre da Noite de Natal. Papai Noel então se levantou devagar segurando a prótese nas mãos e saiu pela porta deixando a lanterna no chão ao lado do nosso jovem. As preces podiam ser ouvidas ao longe.

Ali amanheceu nosso mecânico sem seu milagre e sem sua perna.

E longe já estava o ladrão de prótese.



...

Frases criadas partindo de outras feases - Ana Maria Maruggi

FRASES OFERECIDAS:
O primeiro jovem negava enfático o milagre na noite de Natal.
A novidade é que na noite de núpcias ele fugiu furtando a perna mecânica.

Frases criadas:


. Natal negava a novidade.
. A noite de núpcias negava o milagre!
. O jovem negava as núpcias.
. O Natal enfático fugiu de perna mecânica.
. Natal, a novidade mecânica.
. A noite fugiu.
. A novidade milagrosa na noite de núpcias: a perna mecânica.
. Milagrosamente, as pernas mecânicas fugiram.
. O jovem negava a enfática mecânica da noite de núpcias.
. Ele era a novidade milagrosa da noite.
. Na noite de núpcias o jovem fugia da perna mecânica.
. O milagre enfatizou a novidade nas núpcias do jovem mecânico.
. O jovem mecânico fugiu na noite de núpcias.
. A noite milagrosa do Natal negava as núpcias do jovem.
. A enfática perna mecânica fugia na noite.
. A primeira noite mecânica de núpcias do jovem.
. A novidade é que ele fugiu do jovem na noite de núpcias.
. Milagre! A perna mecânica fugiu!
. O jovem negava enfático que furtou a perna mecânica.
. Na noite de núpcias, o primeiro milagre!
. O milagre negava o Natal!
. O Natal negava a noite!
. O Natal enfático negava milagres!
. O primeiro jovem fugiu na noite de núpcias.
. Que Natal mecânico!
. Ele negava a fuga.
. Ele negava as núpcias.
. A novidade era o milagre na noite de núpcias.
. As núpcias fugiram mecanicamente.
. O jovem furtou o mecânico na noite de núpcias.
. A perna enfática negava o milagre na noite de Natal.
. As núpcias mecânicas negavam o primeiro jovem.
. A perna do jovem era a novidade na noite de núpcias.
. O Natal era a primeira novidade milagrosa.

sábado, 9 de agosto de 2008

Lição de casa



LIÇÃO DE CASA

Para a próxima quarta feira dia 13 de agosto, temos a seguinte tarefa:

A Bia nos passou as duas frases abaixo as quais foram extraídas de um texto da Lygia Fagundes Telles e com essas frases faremos contos curtinhos partindo da combinação de ambas as frases, mas antes criar 50 frases partindo dessas idéias e usando as mesmas palavras das frases dadas (como nos exemplos que foram feitos em sala na última quarta feira):

FRASE 1 - O primeiro jovem negava enfático o milagre na noite de Natal. (página 18 do texto da Lygia F. Telles).

FRASE 2 - A novidade é que na noite de núpcias ele fugiu furtando a perna mecânica. (página 20 do texto da Lygia F. Telles)

Ela pediu para lermos o texto da Lygia na íntegra, apenas depois de fazermos nossa lição de casa. Quem ainda não tem o texto poderá recebê-lo na próxima quarta feira.

GENTE NOVA NA TURMA!

Chegou a AGLAE com pique total!
Ela é amiga da Do Carmo e já foi se inteirando bem do objetivo da oficina.
Seja bem vinda ao grupo!


Para quem não sabe este blog acolhe todos os textos dos encontros da Oficina Escre(r)ver.

Encontro de 06 de agosto

PRIMEIRO ENCONTRO DE AGOSTO

Fizemos exercícios de criatividade com base em duas frases oferecidas:

frase 1 - As formigas comeram o doce que foi deixado sobre a pia.
frase 2 - Os meninos amanheceram tristes depois da derrota.


Tivemos que criar 20 frases com as palavras extraídas dessas duas frases, e somente palvras das frases. Podíamos alterar gênero e nùmero, ou substivar adjetivos e adjetivar substantivos. Eram combinações de palavras que tinham um sentido. Foi divertido o resultado.

E surgiram frases assim:
O que foi deixado amanheceu triste.
Amanheceu a doce derrota das formigas.
O doce de formigas foi a derrota dos meninos.
A tristeza formigou amanhecida na derrota.
O doce, os meninos, as formigas, amanheceram sobre a derrota.
A tristeza sobre a pia.
Foi a formiga que deixou o menino depois da derrota.
etc

E criamos um pequeno conto com base nessas idéias das frases que criamos em sala, mas para o conto já podíamos colocar palavras novas.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008










Da sacola saiam gargalhadas espalhafatosas que até tremiam as alças molengas. A mão enluvada penetrou lentamente provocando mistério e trazendo a pomba que alçou vôo imediatamente.
De repente um livro amarelo saltou para fora assustando a criança curiosa. Do livro voaram porcos, lobos, coelhos, raposas, e outros animais dos contos de fadas, e deu pra ver um pedacinho da imagem do Pequeno Príncipe.
E lá vinha uma cartola preta de onde escapuliam línguas de tintas. O lápis ia rabiscando o espaço criando gnomos e fadas, rainhas e castelos, enquanto a tinta ia colorindo tudo.
A sacola foi aos poucos se escancarando e a mão foi lentamente trazendo criaturas pequenas e delicadas. Eram os incansáveis habitantes da Terra do Nunca.
E lá vinham outras gargalhadas estridentes. E a sacola foi aos poucos desaparecendo dentro da luva branca.


A OFICINA CONTINUA EM AGOSTO!

Já sabemos que a nossa oficina vai continuar em agosto, e provavelmente teremos encontro já nesta quarta feira.

O que ficou combinado por enquanto:

- Cada um de nós vai pagar R$80,00 por mês para Bia. Desta maneira ela não larga nossa turma para ir dar aula de inglês.

- Os encontros começam agora em agosto e terminam em setembro. Serão dez encontros.

Mantenham-se atentos para nosso reinício.

Nos veremos na quarta feira (talvez).

Ana Maria