terça-feira, 2 de setembro de 2008

Vida de anjo - Ana Maria Maruggi




Habitamos o sossegado refúgio dos anjos, uma nuvem branca arredondada com ondinhas levemente azuladas nas bordas. Em cada saliência um de nós dorme enlevado pelos sonhos celestiais. A harpa dos céus se faz ouvir nos dando a sensação de paz que precisamos para acreditarmos em nossa condição de anjo.

Tudo está afinado no cenário, menos meus pensamentos que insistem em lembrar o cachorro que me acompanhou enquanto eu era criança. Fui dona do Lico Labrador com quem brincava de argolas e bolas. Parecíamos crianças. Gostávamos de ajudar as velhinhas atravessar avenidas, mesmo as que não queriam atravessá-las. Divertíamos-nos o tempo todo. Nunca pensei que me reservariam um lugar no céu depois de termos descambado na ladeira o carrinho de compras de Dona Margarida. Foi só risada, minha e do Lico.

Talvez eu esteja aqui por causa do meu cão que quase morreu atropelado não fosse eu ter me adiantado e salvo sua vida, em troca da minha. Dona Margarida agora cuida dele, mas não riem tanto. Daqui da nuvem vejo os dois andando lado-a-lado e fico feliz, afinal ele tem uma boa vida de cachorro.

Agora preciso fingir que estou dormindo é hora da vigília.

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