segunda-feira, 8 de setembro de 2008

O foguete

Texto modificado
Como podia caber em minhas mãos?

Estava de olhos vendados quando mergulhei dentro do saquinho e retirei o pequenino instrumento capaz de elevar à outra esfera o imensurável, pensamentos, vontades, desejos, sonhos, recordações. Foi como tirar o coelho da cartola. Mágica!

Passava o objeto entre os dedos arquitetando a melhor forma de organizar a imaginação, afinal, pouco espaço para tanto material. E como era difícil arrumar aquela bagunça.

Gozei das lembranças, como são danadas! Corriam para lá e para cá, o meio fugia do final e gargalhava do caduto começo. Tio João havia me ensinado a arte de amarrar com cordas, gostava de passar ensinamentos de marinheiro para a afilhada. Todos aqueles nós serviram para, depois de capturadas, juntar as partes reconstruindo as histórias. Sorri. Tio João ficaria orgulhoso!

Chorei doída com as curvas da vida. Porque ainda estavam lá, densas sangrando o caminho? Como podiam ser tão audaciosas a ponto de manchar o meu fértil terreno? Descobri, eram como úlceras queimando a parede do meu estômago. Não podia vê-las, mas sabia, estavam lá, e faziam questão de, periodicamente, me avisar da sua existência. Como me incomodavam! Gritavam sofrimento, soluçavam perda, gemiam injustiça. Comprimi tudo dentro de uma caixa, lacrei com fita preta. Decidi, fariam a viagem junto com o resto.

Uma porta. Nela estava escrita, reprimido. Escondia cenas, objetos, sussurros, vontades. As freiras do colégio diziam impróprios pensamentos. Passei anestesiada. Senti cócegas em algumas partes do meu corpo enquanto olhava atenta. Carícias, sussurros, beijos, suor gozavam no máximo prazer. Embalei com cuidado especial, agora sem lacre na porta. Se pudesse dava de presente à freia Benedita. Talvez ela nunca tenha experimentado a sensação, por isso cobrava tanto menosprezo com nossa puberdade.

Voltei. O foguetinho ainda entre meus dedos, agora pronto para embarcar trasbordando da minha essência. De vez em quando ela pinga por aí.

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