quarta-feira, 24 de setembro de 2008

O dia da eleição

Texto de Gabriela Araujo

A passageira juventude unia aquela turma de garotos. Despreocupados, viris e jovens. Brincavam na rua quando criança. Donos do bairro das Perdizes, andavam atirando pedrinhas nas ladeiras, pulando o portão baixo do velho chato da Bocaina, cutucando galinhas e pavões do Parque da Água Branca. Se você morou no bairro, no tempo de menos prédios, provavelmente foi vítima de alguma artimanha. Talvez a sorte fosse companheira, apenas trombou com a turma por ali

Sujos e famintos, os anos roubaram-lhe a inocência, as pedrinhas e os portões. Luxuosos edifícios foram construídos, e mais e mais. Já as ladeiras, agora serviam de chegada para o futuro não tão distante. A faculdade. Sobreviveram a turma, os dentes, a Bocaina e algumas poucas galinhas e pavões do parque.

O dia da eleição foi a grande descoberta. Eram adolescentes. Altos, magros, invocados, baixos, o gordinho, intimidavam a preocupação alheia gozando a vida e observando a diversidade do sexo feminino que habitava, até então, secretamente, o bairro. Diziam, saiam da toca somente no dia de votar. Conheciam as ruas, as pessoas, as velhas, mas nunca tinham visto as gostosas!

Data mais significativa do ano, ganhava do revellion , férias de verão, o natal então! Reuniam-se na varando do apartamento mais próximo do colégio eleitoral. Infringindo a lei, há tempos driblavam com olés inacreditáveis guardinhas, freias do Santa Marcelina e as mães, e enchiam isopores com latinhas de cerveja.

Mirante certeiro. De lá podiam analisar com cuidado o alvo. Algumas vezes a infância arteira ajudava. Reconheciam, prima do Joãozinho, filha da Dona Lili, irmã caçula do Pedrinho, sobrinha da Filó. Na época sem bunda e, que beleza! sem peito.

Alguns tentavam a sorte, nem sempre acertavam os tiros, outros arquitetavam planos para amanhã. Um pouco de preguiça, afinal, valia uma garota ao conforto da cerveja gelada, da turma na sacada e das risadas?

Ninguém reprimira o programa. Os pais, as freiras, as tias, os visinhos, bom, esses muitas vezes conduziam sermões com o dedo indicador levantado e voz empostada sobre os direitos e dever de um cidadão, entediante lugar comum. Faltava coragem para proibir a turma de garotos que cresceram com as Perdizes. Sobrava inveja de uma juventude próxima do fim.

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