quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Foguete - Gabriela Araujo

Texto de Gabriela Araujo
Como podia caber em minhas mãos?

Estava de olhos vendados quando mergulhei dentro do saquinho e retirei o pequenino instrumento capaz de elevar à outra esfera o imensurável, pensamentos, vontades, desejos, sonhos, recordações. Foi como tirar o coelho da cartola. Mágica!

Passava o objeto entre os dedos arquitetando a melhor forma de organizar a imaginação, afinal, o espaço era pouco para tanto material. E como era difícil arrumar aquela bagunça.

Gozei das deliciosas lembranças, como são danadas! Corriam para lá e para cá, o meio brincava com o final de esconde-esconde e gargalhavam do caduto começo. Tio João havia me ensinado a arte de amarrar com cordas, gostava de passar ensinamentos de marinheiro para a afilhada. Todos aqueles nós serviram para, depois de capturadas, juntar as partes reconstruindo as histórias. Sorri. Tio João ficaria orgulhoso!

Chorei doída com as curvas da vida. Porque ainda estavam lá, densas sangrando o caminho? Como podiam ser tão audaciosas a ponto de manchar o meu fértil terreno? Descobri, eram perfeitas, inteiras cicatrizes. Gritavam sofrimento, soluçavam perda, gemiam injustiça. Comprimi tudo dentro de uma caixa, lacrei com fita preta. Decidi, fariam a viagem junto com o resto.

Uma porta. Nela estava escrita, reprimido. Escondia cenas, objetos, sussurros, vontades. As freiras do colégio diziam impróprios pensamentos. Passei anestesiada. Uma suave brisa fazia cócegas pelo meu corpo. Embalei com cuidado especial, agora sem lacre na porta. Se pudesse dava de presente à freia Benedita.

Voltei. O foguetinho ainda estava entre meus dedos, agora pronto para embarcar trasbordando da minha essência. De vez em quando ela pinga por aí.

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