terça-feira, 9 de setembro de 2008

O esquecimento

Contiunação do texto Desaparição
- Você me vê?- perguntou ela, no mesmo instante. – Me vê como sempre me viu, olhos, cabelos, boca, nariz, pescoço, colo, pernas e tudo?

- Pare com essa bobagem. Volte para cama e durma. Isso não passa de um pesadelo! Aliviada com a resposta retomou seu lugar ao lado daquele que escolhera como eterno companheiro.

Amanheceu. Robotizada levantou na esperança da normalidade. Dobrou os lençóis como de costume, arrumou o quarto como de costume, tirou a camisola como de costume e como de costume foi tomar seu banho matinal. Nada de mudanças na tentativa de retomar a visão do rosto. E, quando olhou-se no espelho, o vácuo.

Não entendia como a ausência da fisionomia só era percebida por ela mesma, afinal o marido sonolento afirmou com nitidez. Continuava enxergando tudo! Permaneceu estática na frente do espelho observando o vácuo que apropriava-se de sua imagem.
Já havia se acostumado com algumas faltas, pensava agora, como poderia viver restringindo-se ao nada? A palavra nada escapou alto. O susto com a própria voz provocou súbita resposta ao acontecido. Agora era o nada!

Como sucção, todo o ar que preenchia o ambiente foi retirado. Os ponteiros do pequeno relógio não moviam-se mais. Paralisaram-se os pingos de água entre a boca da torneira e a pia. Aquela ação havia sido congelada como quando sonhara ser uma geladeira. Apenas seu raciocínio movia-se em velocidade incalculável reproduzindo o som ensurdecedor da verdade.

O casamento arrancou-lhe os sonhos adolescentes de liberdade e conquista do mundo, a maternidade pisoteou a vaidade e o egocentrismo, as dívidas riam de seus desejos, a vida costumeira podava a criatividade, a insegurança calava as vontades. Dia após dia afundava no vão de seu próprio esquecimento.

Um sopro de ar rasgou as narinas completando os pulmões, o delicado barulho do ponteiro avisou as horas,os pingos esparramaram-se na pia e uma gotícula de água penetrou uma das mãos.

Ingênua, tomou distância razoável e mergulhou no interior do espelho. Ficaria ali o tempo necessário para resgatar sua imagem. Anos passaram e nunca ninguém sentiu sua falta. Ela ainda procura por si.

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