
Texto de Loracy Santana
A FRASE DUVIDOSA
O papel. As marcas das dobras e redobras, aberto sobre a mesa nua. No papel amarelado a frase: “Não quero mais esse negócio de você longe de mim”. Há um mês ele fora embora, depois de uma noite que havia sido a mais bela da minha vida. Aquele amor ardente, de tão inflamável evaporou-se, eu ouvi as mais duras palavras que uma mulher pode ouvir e suportar. Chorei apenas, não havia nada para responder, tampouco para entender. Há cinco anos estávamos juntos, não éramos casados, mas nem por isso eu merecia ser chamada de puta, mesmo porque eu não o era. Havia um acordo entre nós que se eu porventura com outro transasse, por amor ou necessidade, que não escondesse, não seria prostituição, jamais lhe esconderia qualquer sentimento sentido, por outro que não fosse meu marido. Ele me conheceu assim, liberada, justa em nunca trair. Só se trai às escondidas e isso nunca havia se dado. Por quê chamara-me de puta? Só pelo gosto de magoar-me, queria por certo que eu o odiasse, que não sofresse. Será?
O papel. As marcas das dobras e redobras, aberto sobre a mesa nua. No papel amarelado a frase: “Não quero mais esse negócio de você longe de mim”. Há um mês ele fora embora, depois de uma noite que havia sido a mais bela da minha vida. Aquele amor ardente, de tão inflamável evaporou-se, eu ouvi as mais duras palavras que uma mulher pode ouvir e suportar. Chorei apenas, não havia nada para responder, tampouco para entender. Há cinco anos estávamos juntos, não éramos casados, mas nem por isso eu merecia ser chamada de puta, mesmo porque eu não o era. Havia um acordo entre nós que se eu porventura com outro transasse, por amor ou necessidade, que não escondesse, não seria prostituição, jamais lhe esconderia qualquer sentimento sentido, por outro que não fosse meu marido. Ele me conheceu assim, liberada, justa em nunca trair. Só se trai às escondidas e isso nunca havia se dado. Por quê chamara-me de puta? Só pelo gosto de magoar-me, queria por certo que eu o odiasse, que não sofresse. Será?
Nunca fizemos juras de amor, mas quando estávamos juntos nos doávamos, inteiramente de corpo e alma, era relação calma, cheia de suavidade, sem promessas. Talvez precisasse prometer: fidelidade absoluta e o até que a morte nos separe, mas reparem, ele era contra qualquer tipo de convenção, sagrada ou social, eu me julgava igual. Quando chegava de suas longas viagens, ali misturados à bagagem nos amávamos pra valer. Nunca fizemos juras loucas, mas o carinho e a atenção eram de coração, sem falsidade. Felicidade, se existe era por nós vivida, sentida e transformada em horas de alucinação. Íamos às nuvens e conhecíamos o Paraíso nos momentos que para nós eram sagrados.
Amanheceu e ele partiu; levou a metade do meu coração, que muito demorou para eu resgatar, para me tornar inteira, disse sem vacilar que era para sempre, não suportava a prisão. Preso? Em gaiola de ouro, reconheceu, pediu que não houvesse choro e eu obedeci. Calado saiu, imitou um sorriso, mas não sorriu. Tinha o rosto de quem parte com fome, para provar o quê? A quem? Sempre fora tão independente, a ninguém devia satisfação, agia sempre pela razão. E agora? Superei toda a dor da brusca e ingrata separação, ele me volta a pedir reconciliação.
Não foi uma chuva de verão, algo estava enraizado em nós, havia um entrelaçamento de sentimentos, que nos prendia como se fosse uma rede enfeitiçada, e por nada a rede se rompeu, ele se desprendeu. Fiquei enredada, com a alma enlutada, sem ao menos ter do que me culpar. Agora ao chegar em casa, a muito refeita de todas as mágoas, com o coração tranquilo, sem sofrimento, com a alma leve, encontro esse pedaço de papel. Levarei a sério o que esse verso encerra? O sentido dessa frase rabiscada, tão bem acabada e com lacônicos dizeres, fará para mim algum sentido? Balançada, coração aos saltos, seguro o papel e não releio, agora só penso em dormir e descansar. Amanhã pensarei sobre isso, se houver um amanhã, é claro.
Um comentário:
Ficou interessante o texto na voz feminina escrita pelo Loracy. A personagem é forte e intensamente comprometida com a protagonização do texto.
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