quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Rotina

Texto de Gabriela Araujo - Diálogo



Passou anos detestando rotinas. Fugia da mesmice do cotidiano como o diabo foge da cruz. Driblava as horas mudando os horários, trazia novidades, buscava o diferente.

A vida sem regras a distanciava de tudo e todos. Não participava de almoços e jantares familiares, costumeiras demais essas confraternização com datas predeterminadas, não matinha amizades, é necessário uma rotina para estabelecer a troca, os relacionamentos, flertes e paqueras, nada mais.

Achava o máximo. Até a falta começar a arder. Sentia o vácuo crescendo dentro. Pouco a pouco pressionando órgãos, cada vez mais órgãos. Fez-se um enorme buraco.

Começou a sentir sua ausência. Falta dos batimentos do coração, não os escutava, do intestino, não funcionava, falta do estômago doendo pelo excesso de comida, ou risada, falta.

Certo dia na cozinha, em um horário nada convencional, preparando o café.

- Não sei se estou com fome.( resmungado) Dei para isso agora.

- Fome não!- alertou a cafeteira em uma inesperada resposta- Você está enlouquecendo.

- Enlouquecendo, eu? (risada irônica)- Até parece.

(suspirando de pena) – Tão sozinha a coitadinha. (pausa) Agora, conversa até com a cafeteira!

( ofendida, apontando para o objeto) – Sou sozinha sim! Antes só do que mal acompanhada. E, quem você acha que é, heim? Imagine que uma velha cafe ( assustada, coloca uma das mãos sobre a boca,olhos arregalado) CAFETEIRA

Abandonou o café, a cozinha, correu para o banheiro. Desespero e vergonha. Sim, estaria louca.

(apalpando o rosto frente ao espelho) – Como pude? (lágrimas escapam) Justo eu. Por quê? Como? Justo eu. Deveria ter procurado um médico. Mas não! Achei que aquela esquisitice toda iria passar. Será que foi a ausência que me fez louca?

- É! – diz o Leite de Rosas em uma prateleira refletida pelo espelho- Toda essa falta ( pausa pensante) todo o desgaste da solidão.

- Como ousa! ( na sua cólera, quebra o espelho com um golpe, vira para o pote) Até você. Um imprestável Leite de Rosas. Estou louca! (girando com as mãos na cabeça) LOUCA...

Tonta, cai no chão. A toalha de banho embrulha seu corpo em um abraço maternal.

- Não fique assim - consola a toalha- Nós daremos um jeito nisso, nessa loucura. Você e eu ( enxugando as lágrimas) juntas.

- Você é uma toalha. (cabeça baixa, olhos fixados no chão) Uma toalha, só! Você não fala. Eu sei. ( olhou para o banheiro, encarando um objeto por vez) Vocês todos não falam!